O QUE É ZARCO LIVRE?

Zarco é uma gíria usada pelos moradores de Joinville para ônibus. Portanto, o Zarco Livre está aberto para transportar o leitor a novas ideias, tendo como parâmetro o respeito à democracia, à verdade e à dignidade humana.

Livre trânsito para todas as idéias

domingo, 17 de dezembro de 2017

Os livros encaixotados em Palmeira dos Índios e o legado de Graciliano


Por Carlos Pompe

Palmeira dos Índios virou notícia nacional, com a divulgação, pela Controladoria Geral da União (CGU), de que mais de 13 mil livros estão encaixotados há alguns anos na Secretaria Municipal de Educação e Esportes. A cidade do interior alagoano, na primeira metade do século passado, também chamou a atenção nacional: seu então prefeito, Graciliano Ramos, havia inaugurado uma nova forma de administração, favorecendo a população desassistida de alimento e ensino.


Os livros encaixotados em Palmeira dos Índios


Segundo a CGU, o fato causou um prejuízo de quase R$ 1 milhão para o programa Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). São livros para alunos, para professores, para família; cartilhas sobre drogas e sobre bulyng. O material é sobra do que foi distribuído nas 24 escolas municipais. São mais de 13 mil livros - mais do que o dobro do que o necessário para o município. O prefeito Julio Cezar (PSB) entrou com ação contra o ex-gestor, James Ribeiro (PSDB), devido ao excesso do pedido de compra.

Nessa mesma cidade, em 1926, Graciliano Ramos (34 anos), autor de Vidas Secas, São Bernardo e tantos outros clássicos da literatura brasileira, foi nomeado presidente da Junta Escolar. Fazia inspeções de surpresa. Numa das visitas, flagrou uma escola sem aula e as professoras conversando na diretoria. Ao tomar conhecimento dos motivos, mandou comprar sapatos e tecidos para a confecção de uniformes para os alunos. Escreveu em relatório às autoridades estaduais: "As escolas estão pessimamente instaladas. Cada aluno leva a sua cadeira, cada professora, a sua banca". No final do ano seguinte, foi candidato único a prefeito e eleito. A verba nos cofres municipais mal dava para cobrir a folha de pagamento dos servidores. Cobrou os impostos com rigor e cancelou as isenções fiscais.


Graciliano Ramos em 1934
Administrou as finanças da Prefeitura anotando pessoalmente a finalidade do gasto, a quantia paga e o nome do beneficiado. Fez aprovar, no Conselho Municipal (Câmara de Vereadores), o Código de Posturas, regulamentando direitos e deveres dos cidadãos e do poder público. "Eis alguns: animais não poderiam andar soltos nas ruas; os comerciantes eram impedidos de açambarcar mercadorias de primeira necessidade em época de carestia; os farmacêuticos, proibidos de vender determinados remédios sem receita médica; os hoteleiros, obrigados a ter em ordem o livro de hóspedes e a afixar a tabela de preços em locais visíveis; o comércio não poderia funcionar além das 21 horas nem abrir aos feriados e fins de semana; açougueiros não poderiam vender carne de rês doente e teriam de passar a recolher impostos", relata Dênis de Moraes na biografia O velho Graça.

Nos dois relatórios de prestações de contas que enviou, em janeiro de 1929 e de 1930, ao governador de Alagoas, Álvaro Paes, relatou: "Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo à extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores".

Ironizou as agruras do "pobre povo sofredor" (seriam os "coxinhas" de hoje?) nestes termos: "É uma interessante classe de contribuintes, módica em número, mas bastante forte. Pertencem a ela negociantes, proprietários, industriais, agiotas que esfolam o próximo com juros de judeu. Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão. Como ninguém ignora que se não obtém de graça as coisas exigidas, cada um dos membros desta respeitável classe acha que os impostos devem ser pagos pelos outros".

Quanto à instrução, registrou: "Instituíram-se escolas em três aldeias. Serra da Mandioca, Anum e Canafístula. O Conselho mandou subvencionar uma sociedade aqui fundada por operários, sociedade que se dedica à educação de adultos. Presumo que esses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras. Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos, passatempos acessíveis a quase todos os roceiros".

Em março de 1930, o governador convidou-o a assumir a direção da Imprensa Oficial do Estado, em Maceió. Para atender ao pedido, renunciou em 10 de abril. Escreveu à esposa, Heloísa de Medeiros Ramos: “Para os cargos de administração municipal escolhem de preferência os imbecis e os gatunos. Eu, que não sou gatuno, que tenho na cabeça uns parafusos de menos, mas não sou imbecil, não dou para o ofício e qualquer dia renuncio”.

Na nova função, reestruturou a Imprensa Oficial e foi nomeado, em seguida, para a direção da Instrução Pública (atual Secretaria de Estado da Educação de Alagoas). Tempos bicudos. De uma população em idade escolar de 124.890 indivíduos no Estado, apenas 1.356 alunos concluíram o curso primário, naquele em 1931, e 36, o secundário. Faltavam merenda, uniforme e instalações físicas adequadas nas 47 escolas municipais e nas 327 estaduais.

Em três anos de trabalho, Graciliano reformou parte dessas escolas e iniciou a construção de novas sedes em Maceió e no interior. Chegou a triplicar o material escolar, ampliar o acesso à merenda e garantir a entrega de uniformes para as crianças. Aumentou as vagas instituindo regime de turnos e diminuiu evasão dos alunos. Até uma biblioteca foi inaugurada no grupo Diégues Júnior.

Equiparou o salário das professoras da zona rural com o da capital, instituiu concurso público obrigatório para as educadoras do ensino primário possibilitou a algumas crianças negras o ingresso na escola. “Cometi um erro", comentou a respeito, "encontrei 20 mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas 50 mil, o que produziu celeuma. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível.”

Foi arrancado da Instrução Pública para ir para o cárcere: foi preso em sua casa e levado, de navio, para o Rio de Janeiro imputado de ser comunista pela ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas (acusação falsa – só se filiou ao Partido Comunista em 18 de agosto de 1945). Nunca foi processado e nem condenado. Dessa experiência resultou a obra prima Memórias do Cárcere. Não voltou a morar em Alagoas.

Depois de liberto, trabalhou como inspetor federal de ensino. Fiscalizou colégios em subúrbios do Rio de Janeiro. Respondeu, quando perguntado como se sentia como funcionário público: “Não escolhi ser. Mas fiz o que achei que me cabia”.

Como diz uma canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, " o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir".


Chacina da Lapa, ato terrorista do ditador Geisel

Por Domingos Miranda

Quando se fala em governo terrorista, o primeiro nome que nos vem à mente é o de Hitler, na Alemanha nazista, que causou tantas mortes e sofrimento no mundo todo. Mas, poucos ainda se recordam que os brasileiros viveram sob o jugo de um regime fascista, cuja política é baseada no terror e no medo, entre 1964 e 1985. Durante a ditadura militar foram praticados milhares de atentados aos direitos humanos e seus responsáveis ficaram impunes até os dias atuais. Entre tantos casos, gostaria de citar aqui o episódio de terrorismo contra os dirigentes do PCdoB, praticado pelas forças de repressão do Exército em São Paulo, em 16 de dezembro de 2016, e que ficou conhecido como a Chacina da Lapa.

Os corpos de Ângelo Arroio e Pedro Pomar, logo após o ataque da repressão.

Entre os anos de 1972 e 1974, o Partido Comunista do Brasil dirigiu a mais prolongada luta de resistência armada contra a ditadura nas selvas do Araguaia, no Sul do Pará. Dirigentes, militantes e camponeses tombaram heroicamente nesta guerra desproporcional, onde menos de uma centena de rebeldes enfrentaram 20 mil homens das Forças Armadas muito bem armadas. Terminado o conflito, o PCdoB marcou uma reunião clandestina em São Paulo para fazer um balanço da guerrilha que havia sido desmantelada.

As condições de segurança para este encontro tinham que ser de extrema eficiência. Entre 1972 e 1975, seis dirigentes dos PCdoB foram assassinados nas mãos das forças da repressão. No entanto, um fator pesou contra os comunistas. Um dos dirigentes, Jover Telles, que havia sido preso anteriormente, passou informações para a repressão sobre esta reunião do comitê central que aconteceu nos dias 14 e 15 de dezembro. Na manhã do dia 16, quando os comunistas já estavam se preparando para deixar a residência, no bairro da Lapa, começou o ataque das equipes do DOI-CODI, do Exército.

Foram mortos a tiros os dirigentes Ângelo Arroio e Pedro Pomar e sob brutais torturas João Batista Drummond. Também foram presos e torturados Aldo Arantes, Haroldo Lima, Elza Monnerat, Joaquim Celso de Lima, Maria Trindade e Wladimir Pomar. O objetivo maior das forças de repressão era matar João Amazonas, uma das principais lideranças do partido, mas que naquele momento se encontrava na Albânia. A tentativa de destruir o PCdoB não foi alcançado, pois outros membros do comitê central que estavam no exterior passaram a dar a orientação política através do jornal A Classe Operária. Com a anistia, estes dirigentes voltaram e criaram um jornal de massas, a Tribuna Operária, que serviu como uma importante alavanca para o crescimento do partido em todo o país.

Neste momento em que o fascismo tenta se apossar do poder novamente, devemos unir forças para barrar esta anomalia da política. Só com a união de todas as forças democráticas conseguiremos barrar o avanço daqueles que pregam o terror. E, nesta hora devemos reverenciar os camaradas que deram as suas vidas e lutaram contra a ditadura militar. Fascismo nunca mais.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O jovem Marx e os despossuídos

Por Carlos Pompe

Este 2017 trouxe duas novidades sobre Karl Marx. Uma, mundial: o lançamento, em meados do ano, do filme O Jovem Marx, de Raoul Peck; outra, local: a publicação, em janeiro, pela primeira vez no nosso país, de Os despossuídos - título com que a Boitempo enfeixou os artigos de Karl, publicados de 25 de outubro a 3 de novembro de 1842, na Gazeta Renana, sobre a lei referente ao furto de madeira - no ano seguinte, devido a estes e outros artigos seus, o jornal foi fechado pelo governo.



O filme começa com a repressão policial a pessoas que recolhem pedaços de madeira e galhos na floresta. Durante as cenas, são citados trechos dos artigos que estão em Os despossuídos. Termina com a elaboração do Manifesto do Partido Comunista, escrito em 1847 e publicado no início de 1848. Sem abordar discussões entre os conteúdos dos escritos de Marx e Engels desse período e dos posteriores, como O capital (1863) e O anti-Dühring (Engels, 1877), o filme trata da vida e das atividades dos dois fundadores do materialismo dialético quando tinham entre 20 e 30 anos - Marx, nascido em 1818; Engels, em 1820.

Embora tenham se encontrando antes, em 1842, ainda na Alemanha, os dois só se tornaram amigos em Paris, no exílio de Marx, em 1844. O filme cita, nominalmente, ou se refere ao conteúdo em diálogos entre os protagonistas, a obras até então escritas por eles. De Engels, Esboço para uma crítica da economia política (1844) e A situação da classe trabalhadora (1845). De Marx, Crítica da filosofia do direito de Hegel (1843), Manuscritos econômicos-filosóficos (escritos em Paris em 1844), Teses sobre Feuerbach (1845), Miséria da Filosofia (1847) e parte de sua correspondência, incluindo as parcerias: A sagrada família, ou crítica da crítica crítica, contra Bruno Bauer e consortes e A ideologia alemã (ambos de 1845). Alguns desses textos só foram encontrados e publicados na primeira metade do século passado, graças a pesquisadores da União Soviética, então comandada por Stálin.

O diretor do filme foi ministro da Cultura do Haiti nos anos 1990 e atualmente preside a escola de cinema Femis, do Ministério da Cultura e da Comunicação da França. Nasceu no Haiti e ainda jovem migrou para o Congo. Estudou nos Estados Unidos, na França e na Alemanha. Sua filmografia inclui Lumumba, sobre o líder assassinado da independência do Congo, e Eu não sou seu Negro, indicado ao Oscar de melhor documentário em 2016.

Para ele, "Marx sempre foi incontornável. Não podemos explicar nada sobre a sociedade na qual vivemos sem voltar ao seu pensamento, aos conceitos que ele criou e à sua grade de explicações. ... Eu queria mostrar Marx, Engels e Jenny, a esposa de Marx, na vida concreta, a partir da própria palavra deles. Eles são jovens, eles têm em torno de 20 anos, são revoltados e ambicionam mudar o mundo. É essa a essência do filme. E meu objetivo, desde o início, foi essa formidável história que inspira jovens hoje em dia e espero que ela alimente seus próprios combates. Eu não fiz esse longa metragem olhando pelo retrovisor, mas olhando para a frente, em direção ao presente e ao futuro. Esse filme é um convite para que eles tomem as rédeas de suas vidas, como fizeram esses três jovens na época deles, um convite para que eles mudem tudo o que deve ser mudado, sem colocar limites a priori. Conheçam sua história, aprendam a ver a relação entre os eventos à primeira vista desconectados, armem-se intelectualmente, organizem-se e lutem! É um trabalho! Essa é a mensagem".

Marxismo em formação

Já Os despossuídos traz os textos, que abrem o filme, de um Marx materialista, fortemente influenciado pela filosofia e conceitos idealistas de Georg Wilhelm Friedrich Hegel mas, principalmente, pela sua dialética e inclusive estilo de redação, com formulações engenhosas como "Se o conceito do crime exige a pena, a realidade do crime exige uma medida de pena. O crime real é limitado. A pena deverá ser limitada para ser real, e terá de ser limitada conforme um princípio legal para ser justa. A tarefa consiste em fazer da pena a consequência real do crime".

Esses textos, escritos quando Karl era um jornalista de 24 anos, debatem uma questão permanente para o movimento socialista, a da propriedade, sua origem e seus limites, então pontuada pela concepção de Pierre-Joseph Proudhon, cuja relação com Marx também é abordada no filme (se, nos artigos, a posse da madeira, algo resultante da natureza, anterior à existência humana, é a motivação da abordagem do autor, atualmente Peter Brabeck-Letmathe, presidente do grupo Nestlé, quer privatizar a água do planeta.

Os artigos publicados no livro também cuidam das relações entre direito e Estado, direito e interesses de classes - numa época em que o autor ainda não havia concluído que a ideologia de uma época é a ideologia da classe dominante e que o Estado é, no fundamental, um instrumento de dominação dos exploradores sobre os explorados, dos possuidores sobre os despossuídos - para usar a expressão dos editores -, mas já ia se aproximando dessa compreensão. Também neles aparecem, ainda sem o conteúdo que posteriormente assumiriam, expressões como "valor" e "mais valor" (opção da editora para "mais valia").

No seu Prefácio de Para a crítica da economia política (1859), Marx se refere a esse período: "No ano de 1842-43, como redator da Gazeta Renana, vi-me pela primeira vez, perplexo, perante a dificuldade de ter também de dizer alguma coisa sobre o que se designa por interesses materiais. Os debates do Dieta" (parlamento) "Renana sobre roubo de lenha e parcelamento da propriedade fundiária, a polémica oficial que Herr von Schaper, então presidente da província renana, abriu com a Gazeta Renana sobre a situação dos camponeses do Mosela, por fim as discussões sobre livre-cambismo e tarifas alfandegárias protecionistas deram-me os primeiros motivos para que me ocupasse com questões econômicas. Por outro lado, tinha-se nesse tempo — em que a boa vontade de 'ir adiante' repetidas vezes contrabalançava o conhecimento das questões — tornado audível na Gazeta Renana um eco do socialismo e comunismo francês, sob uma tênue coloração filosófica. Declarei-me contra esta remendaria, mas ao mesmo tempo confessei abertamente, numa controvérsia com o Jornal Geral de Augsburgo, que os meus estudos até essa data não me permitiam arriscar eu próprio qualquer juízo sobre o conteúdo das orientações francesas. Preferi agarrar com ambas as mãos a ilusão dos diretores da Gazeta Renana, que acreditavam levar a anular a sentença de morte passada sobre o jornal por meio duma atitude mais fraca deste, para me retirar do palco público e recolher ao quarto de estudo".

Livro e filme são instrumentos para o conhecimento dos trabalhadores da realidade que nos cerca, hoje. Como disse Marx num debate com revolucionários, reproduzido no filme, "a burrice não ajuda a ninguém". Ou, como afirmou um dos maiores pensadores brasileiros, Paulo Freire: "Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda".

Mudemos a sociedade. Um novo mundo, socialista, é possível. Proletários de todo o mundo, uni-vos!


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O golpe de Temer, na visão dos trabalhadores

Por Carlos Pompe

Não existe abordagem neutra da história e da política e, neste momento em que estas linhas estão sendo lidas, a história e a política estão sendo feitas, inclusive por quem as lê e quem as escreve. Está é uma premissa com a qual o jornalista Umberto Martins escreveu "O golpe do capital contra o trabalho" e o autor não é neutro: não escamoteia que tem lado - o do trabalho contra o capital, o do golpeado que decifra o golpeador.

O livro inaugura a série de publicações que a Central dos Trabalhadoras e Trabalhadores do Brasil (CTB) pretende promover em conjunto com a editora Anita Garibaldi. Como anuncia o presidente da CTB, Adilson Araújo, trata-se de "um texto engajado na luta da classe trabalhadora por uma sociedade mais justa, voltada para a satisfação das necessidades e demandas populares e a construção de um Brasil próspero, democrático e soberano".

Desmistificando o interesse de classe dos golpistas

A abordagem consciente dos fatos históricos requer a investigação das relações reais, totalizadora e desmistificadora. Umberto se vale do conhecimento adquirido com anos de estudos e trabalho com o jornalismo econômico, partidário e sindical, sua militância pela causa socialista e o rigor na investigação objetiva dos acontecimentos recentes. Expõe fatos essenciais, entrelaçados por relações causais. Com isso, descarta o mero relato cronológico do golpe.

O autor demonstra a conexão interna dos que promoveram o falso impeachment de Dilma Rousseff ao longo de ações e pregações de vários anos, reduzindo, segundo sua concepção classista, os acontecimentos políticos a efeitos e causas que, em última instância, são econômicos. Desmascara as relações promíscuas entre os capitalistas nacionais e forâneos, interesses de setores, castas e corporações em acabar com a experiência que vinha se realizando nos governos Lula e Dilma, aspectos contraditórios desses dois governos que foram chefiados pelo primeiro operário e primeira mulher na Presidência do Brasil, os interesses da mídia burguesa oligopolista - também aqui nacional e forânea.

Vê a história de uma forma proletária, colocando a luta pelo socialismo e comunismo como parte da investigação científica, incorporando na análise o objetivo da classe assalariada. Leva, assim, em conta o alerta de Friedrich Engels, cofundador, com Karl Marx, da concepção materialista dialética, exposto em "A ideologia alemã", onde afirma que nós "temos que examinar a história dos homens, pois quase a totalidade da ideologia se reduz, seja à interpretação adulterada dessa história, seja à completa abstração dela. A ideologia é, em si mesma, um dos aspectos dessa história".

Focaliza a história cotidiana de nossa época, debruça-se sobre os acontecimentos no próprio momento em que eles se desenrolam, escreve sob sua pressão direta. Novamente como Engels, para ele a história "não faz nada, 'não possui uma riqueza imensa', 'não dá combates', é o homem, o homem real e vivo que faz tudo isso e realiza combates; estejamos seguros de que não é a história que se serve do homem como de um meio para atingir - como se ela fosse um personagem particular - seus próprios fins; ela não é mais que a atividade do homem que persegue os seus objetivos" (A sagrada família).

O livro traz para os trabalhadores e trabalhadoras os esclarecimentos e os conhecimentos proporcionados por este momento histórico. Florestan Fernandes, na introdução para o volume sobre Marx e Engels da coleção "Grandes Cientistas Sociais", registra: "A história da vida cotidiana e do presente em processo, encarada da perspectiva do materialismo histórico, propõe-se lidar, simultaneamente, com os fatos históricos que permitem descrever tanto o 'superficial' quanto o 'profundo' na cena histórica". No plano interpretativo, essa abordagem busca descobrir a rede, ou redes, de causação histórica, e é esse o objetivo de Umberto ao oferecer esta obra.

Conceitos marxistas

Para além de apresentar e interrelacionar fatos econômicos, políticos e sociais, "O golpe do capital contra o trabalho" também apresenta, em linguagem acessível para o trabalhador, o ativista e o estudioso da conjuntura conceitos fundamentais do marxismo, como o de classes e luta de classes, Estado, mais valia, ideologia e outros que auxiliam ao próprio leitor fazer sua análise da realidade em que vivemos.

Todas as condições de uma exposição de conjunto da história que se desenrola diante de nossos olhos encerram inevitavelmente fontes de erros, mas isso não impede ninguém de escrever a história de nossos dias e Umberto Martins nos apresenta sua colaboração para compreendermos e atuarmos para enfrentar e modificar, para melhor, o mundo que nos foi legado e que legaremos às gerações futuras.

É o autor que afirma que sua obra "procura abordar e compreender o golpe à luz dos interesses e das lutas de classes, sob a ótica do marxismo, que nos sugere, assim como a própria experiência em curso, que os atores principais do drama histórico nem sempre são os políticos que dele participam. Mais relevantes são as ações das classes sociais e, dentro delas, das chamadas classes dominantes, que se movimentam preferencialmente nos porões do poder, à margem do senso comum".

"O golpe do capital contra o trabalho" pode ser adquirido no Portal da CTB, http://portalctb.org.br/site/, e na editora Anita Garibaldi http://www.anitagaribaldi.com.br/.

Um instrumento de conhecimento e luta. Use-o!



quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O dia em que o ditador foi escorraçado pelos catarinenses

Por Domingos Miranda



Raríssimos são os casos em que um ditador foi posto para correr pela população em uma cidade. E isso aconteceu em Florianópolis, em 30 de novembro de 1979, quando o general-presidente João Figueiredo visitou a cidade e o episódio ficou conhecido como A Novembrada. Naquele ano o país estava agitado e era como o destampar de uma panela de pressão após 15 anos de ditadura. No ABC paulista, os operários das montadoras fizeram grandes paralisações pelo segundo ano consecutivo. Os moradores faziam abaixo-assinados e manifestações contra a carestia. No início do segundo semestre saiu a anistia e a quase totalidade dos presos políticos foram soltos. Os perseguidos que estavam no exterior começaram a voltar e foram criados os jornais alternativos ligados a partidos, entre eles a Tribuna Operária, do PCdoB. Havia um grande descontentamento popular por causa do desemprego, baixos salários e carestia. Bastou um gesto obsceno do ditador para que a rebelião começasse.

Figueiredo chegou à capital catarinense com grande esquema de segurança. No caminho do aeroporto à capital ele teve que ouvir um panelaço das moradoras por causa da carestia pois, às vésperas da viagem, autorizou o aumento dos combustíveis e da carne, insuflando o descontentamento popular. Para agravar o quadro, o governo federal decidiu inaugurar uma placa de bronze em honra ao marechal Floriano Peixoto, que era mais conhecido por ter mandado fuzilar mais de cem pessoas em Florianópolis durante a Revolta da Armada, em 1893.

O ambiente estava carregado quando o presidente fez o seu discurso, da fachada do Palácio Cruz e Sousa, e foi recepcionado por uma manifestação de 4 mil estudantes convocada pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Assim que ele ouviu as primeiras vaias ficou transtornado e fez um gesto obsceno com os dedos polegar e indicador. A partir daí a população se uniu aos universitários e enfrentaram os policiais. A placa em homenagem a Floriano foi arrancada e levada como troféu e os enfeites, colocados na praça XV de Novembro para recepcionar as autoridades, foram arrancados e queimados.

No trajeto até um tradicional café na rua Felipe Schmidt, Figueiredo foi hostilizado com palavras de ordem que citavam o nome de sua mãe e avançou contra o povo. Ele foi contido pelos seguranças e teve que ser retirado às pressas do local. A Polícia Militar agiu com extrema violência contra os manifestantes e a cidade ficou deserta no resto do dia. Em seguida a polícia iniciou as investigações e prendeu sete líderes estudantis que foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional. As repercussões destas cenas rodaram o mundo.

Nos dias seguintes foram feitas várias manifestações, algumas com cerca de 10 mil pessoas, exigindo a libertação dos estudantes presos. A pressão popular fez efeito e no dia 12 de dezembro os sete membros do DCE foram libertados. Os militares que mandavam no país saíram desmoralizados. Quatro anos depois teve início a maior mobilização da história brasileira, a Diretas Já, que resultou no fim da ditadura, em março de 1985.

O professor universitário Sílvio Coelho dos Santos escreveu o livro “Nova História de Santa Catarina” e relatou que o golpe militar de 1964 trouxe muita violência e perseguição aos moradores do Estado. Nas palavras dele, “todos perderam com as amarras criadas pelo regime de exceção, centrado na delação, no medo, na alienação, na censura, na concentração de renda e no endividamento externo. Foram os anos de chumbo. Não é de se estranhar a explosão social ocorrida em Florianópolis, em 1979, em protesto contra a visita do então general-presidente Figueiredo. A população também tinha a sua memória”.

sábado, 18 de novembro de 2017

A difícil situação dos índios guarani

Por Domingos Miranda

Ideias simples costumam ser eficientes pois são mais fáceis de serem colocadas em prática. Foi isso o que fez o advogado e sociólogo Jeison Heiler, professor da Universidade Católica de Joinville. Ele tem levado seus alunos até as aldeias dos índios guarani espalhadas pela região de Joinville para conhecerem a realidade desta etnia tão marginalizada pela nossa sociedade. No dia 16 de novembro eu acompanhei a excursão dos alunos de direito até a aldeia Piraí, no município de Araquari, às margens da BR-280. Aprendi muito com a conversa com o cacique Ronaldo Costa, 41 anos, líder de 23 famílias (150 pessoas), espremidas numa pequena área de dois hectares.

Cacique - Ronaldo Costa - Karai Tukumbó

Inicialmente estivemos na escola de ensino básico, com 57 alunos, sob a coordenação da índia Cecília Brizola, As aulas são em guarani e português. Além das disciplinas existentes em qualquer escola urbana, ali também é valorizada a cultura tradicional indígena. Cecília, por exemplo, que trabalha com ervas medicinais, explica aos alunos o valor de cada planta. Ela revela que o desmatamento tem prejudicado o seu trabalho. “Sem mato a gente não vive. Temos cura para tudo, até para o câncer, mas aqui não tem quase nada do que a gente precisa para fazer os remédios”, diz.

Família Guarani


Em um amplo salão de pau-a-pique (paredes de barro entrelaçado com paus) e chão batido funciona a área de culto ao Deus Nheanderu. O cacique, antes de começar a falar, acende o seu enorme cachimbo com fumo de corda. Ronaldo Costa explica que a fumaça ajuda a entrar em contato com Nheanderu. Ele falou sobre as dificuldades enfrentadas, tais como o desconhecimento por parte dos brancos – juruá – da sua cultura. “Muitas vezes dizem que nós somos do Paraguai ou da Argentina, mas estas separações de fronteira não existem para nós. Antes da chegada dos brancos toda a região Sul, Paraguai e norte da Argentina já estava habitada pelos guarani. Então não precisamos pedir licença para percorrer nosso território original”, frisou.

Estudantes Guarani

O preconceito contra o índio está muito arraigado entre a população. Muitos costumam afirmar que o índio é preguiçoso, mas não entendem que a mentalidade indígena não é capitalista, onde só tem valor quem tem dinheiro. Os habitantes originários viviam da caça e pesca, por isso eles sempre se preocupam em preservar o meio ambiente. “O desmatamento prejudica. Sem mato a gente não vive. Nós estamos preocupados com os brancos que estão cortando todo o mato. Se um dia acabar o mato nós vamos acabar, os rios vão secar”, nos ensina Ronaldo, com o rosto pintado e um cocar na cabeça.


Sem condições de sobreviver com a caça e a pesca, eles são obrigados a comercializar artesanato nas cidades. O cacique conta que plantou uma roça de milho e o dono das terras soltou o gado em cima e acabou com tudo. A grande esperança deles é a demarcação de quatro reservas indígenas, determinada pela Funai, mas embargada pelo Tribunal da Justiça Federal. Esta é uma luta que mobilizou os proprietários rurais das áreas atingidas pela demarcação e que está sendo discutida na justiça. As quatro áreas, num total de 10 mil hectares, estão nos municípios de Araquari, Balneário Barra do Sul e São Francisco do Sul.

Jeison, Cacique, e Domingos aos fundos a Casa de Reza


A sociedade deveria reconhecer o valor destes indígenas e se solidarizar com a sua luta. Os habitantes da região, quando chegaram os primeiros brancos, eram os índios carijó (também da etnia guarani). Por serem pacíficos, foram presas fáceis para os bandeirantes que os caçavam, aprisionavam e vendiam-nos como escravos em São Paulo. Por volta do século 17 estes indígenas já estavam extintos. Não podemos deixar que isto aconteça novamente com os atuais moradores das reservas Piraí, Pindoty, Tarumã e Morro Alto. Respeitar o diferente é o que nos torna mais humanos.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Cem anos da Revolução de Outubro

Por Domingos Miranda

A utopia é o motor que faz avançar a humanidade. E a busca por justiça e igualdade é a ideia que mais entusiasma os oprimidos. No dia 7 de novembro de 1917 (26 de outubro no calendário russo daquela época), a revolução dirigida pelo Partido Bolchevique (Comunista) da Rússia colocou os operários e camponeses pobres no poder. Pela primeira vez na história, os trabalhadores eram os protagonistas da história. Sob a liderança de Lênin, o regime comunista, enfrentando todas as dificuldades imagináveis, venceu os inimigos interno e externos, ficando no poder por mais de 70 anos. Foi uma experiência que provocou enormes transformações em todo o mundo.


Em fevereiro de 1917 ocorreu a primeira revolução, a que derrubou o czar, tendo sido implantado um governo provisório burguês. No entanto, como o governo não atendeu as duas principais reivindicações do povo – paz e terra para os camponeses, aconteceu a tomada do poder pelos sovietes, órgãos que representavam os operários, soldados e camponeses. A Revolução de Outubro, imediatamente tomou medidas radicais. As terras dos latifundiários foram entregues aos trabalhadores pobres do campo e assinado um acordo de paz com os alemães, pondo fim a uma guerra que durava desde 1914 e que causara milhões de mortos.

Mas os inimigos internos e externos não permitiram que a paz fosse duradoura. A elite russa uniu suas forças em torno do Exército Branco para derrotar o governo soviético. Ao mesmo tempo, tropas de 14 nações poderosas invadiram a Rússia. A guerra civil durou três anos, mas, aquilo que parecia impossível aconteceu: o Exército Vermelho, formado em sua maioria por voluntários, venceu. A partir daí era necessário fazer avançar a sociedade de novo tipo, sem exploradores.

Em 1924, morreu Lênin, o maior dirigente da revolução, e foi substituído por Stalin. Mesmo com os erros cometidos, pois era uma experiência totalmente inédita na face da terra, aqueles líderes estabeleceram políticas que conseguiram avanços impressionantes em quase todas as áreas. Em 40 anos, um dos países mais atrasados da Europa, se transformou na segunda potência do mundo. O avanço mais impressionante foi na industrialização. Graças à sua enorme capacidade de produção, foi possível criar condições materiais para enfrentar o invasor nazista, na Segunda Guerra Mundial. Os produtos bélicos saíam diretos das fábricas para os campos de batalha, permitindo derrotar o exército mais poderoso do mundo naquele instante. A educação e a ciência também deram avanços excepcionais, conseguindo abolir o analfabetismo e criar o maior estoque de cientistas do planeta. A União Soviética foi o primeiro país a colocar um cosmonauta em órbita.

Mas, tudo na vida está sujeito a acertos e erros. Se os erros não forem corrigidos podem implodir uma experiência vitoriosa. E foi isso o que aconteceu com o caminho socialista na União Soviética. Entre os equívocos, podemos ressaltar a burocratização do Partido Comunista, o que criou dificuldades para as críticas fraternas e a renovação de ideias. No final da década de 80 e início da década de 90 o capitalismo voltou a imperar na terra de Lênin e nos países do Leste Europeu. A partir daí a China foi quem levantou com sucesso a bandeira do socialismo.

A luta pelo socialismo se mostra mais atual do que nunca diante da política expansionista e belicista do imperialismo. A lista das agressões contra países mais fracos é longa nos últimos 25 anos: Iugoslávia, Somália, Afeganistão, Iraque, Líbia, Ucrânia, Síria. A única maneira de conter esta política terrorista dos Estados Unidos é juntar forças em prol do socialismo. Sabemos que esta é uma tendência natural da história mas, para que tal aconteça vai depender das massas, sob a orientação dos partidos que representam a classe operária e os setores oprimidos da sociedade. A Rússia, em 1917, nos ensinou que isto é possível. Portanto, vamos continuar levantando a bandeira da revolução.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Debate sobre greve geral de 1917, revolução russa e reforma das leis trabalhistas agrada estudantes

Por Domingos Miranda



Durante três horas, na noite de terça-feira (17), cerca de cem pessoas, entre estudantes do curso de jornalismo do Ielusc e outros convidados, participaram do debate para comemorar o centenário da greve geral em Joinville e da revolução russa e ouvir comentários sobre a reforma das leis trabalhistas . A abertura foi feita pela professora Valdete Daufembach e pelo coordenador do curso de Jornalismo, Sílvio Melatti. Os palestrantes foram a professora Iara Andrade Costa, o jornalista Bernardo Joffily e o advogado Luiz Gustavo Assad Rupp.





Iara Costa, professora aposentada de história da Univille, comentou que a greve geral de 1917 em Joinville foi um assunto banido da imprensa e que muitos documentos existentes nos sindicatos foram destruídos. “Historiadores que abordaram o tema foram expurgados da cidade”, revelou. Em sua tese “A cidade da ordem: tensões sociais e controle” ela abordou o mundo dos operários na cidade entre 1917 e 1943. Os baixos salários e a carestia eram as principais queixas dos trabalhadores. Por isso, quando a greve estourou, em 23 de julho de 1917, várias categorias aderiram, o que pegou os patrões de surpresa. Estes diziam que “os grevistas estavam infiltrados por anarquistas que vieram de Curitiba”. A paralisação terminou no dia 1º de agosto quando foi concedido 20% de aumento nos salários.

Bernardo Joffily, autor do livro “Pequena história de um século da Grande Revolução de Outubro”, iniciou sua palestra dizendo: “Sou um entusiasta da revolução russa, não acrítico. Dentro de alguns dias vamos comemorar o centenário da revolução e também os 26 anos do desaparecimento da União Soviética”. Ele comentou que a Revolução de Outubro “foi um destes momentos magníficos que nós da espécie humana somos capazes de empreender e que dá um salto civilizacional”. Acrescentou que as conquistas da União Soviética influíram em todo o planeta. Lembrou também que “sob pressão do fantasma do mundo do socialismo, o capitalismo cedeu alguns direitos para tentar evitar o avanço da revolução”. Bernardo frisou ao final: “Nós devemos aprender com a revolução soviética, com seus acertos e defeitos”.

Luiz Gustavo Rupp, assessor jurídico do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Joinville e professor da Univille, começou sua fala dizendo que a reforma trabalhista está ligada com a crise que estamos passando: “O capitalismo precisa de crise, é um sistema injusto na sua essência. Evidentemente que o capitalismo precisa ser superado”. Acrescentou que nenhum direito foi dado por causa da bondade de alguém, mas todos eles foram conquistados com muita luta. E lembrou que no início do século passado “os sindicatos com predominância dos anarquistas lutavam pelo poder, tinham uma atuação política. Getúlio Vargas, que mais tarde criou a CLT, tentou domesticar os sindicatos subordinando-os ao Ministério do Trabalho”. Informou que isto que o governo Temer está fazendo “não é reforma trabalhista, é uma contrarreforma. Este é um governo ilegítimo e as leis foram aprovadas por um Congresso Nacional que é um covil de ladrões. Foram alterados mais de 200 artigos da CLT. Nenhum emprego será gerado com esta reforma, pelo contrário, vai facilitar a demissão”. Acrescentou que nesta semana portaria do Ministério do Trabalho flexibilizou o conceito de trabalho escravo. “Nós estamos indo para a barbárie. E o capitalismo é isso.”

O debate no anfiteatro do Bom Jesus/Ielusc contou com o apoio do Blog Zarco Livre para a sua concretização. Foi o único evento na cidade de Joinville que falou sobre o centenário da greve geral de 1917.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Em Joinville Mesa redonda debaterá greve de 1917 e a revolução russa

O ano de 1917 foi marcante na história. Na Rússia aconteceu um grande movimento popular que depôs o Czar e mais tarde, com a Revolução de Outubro, os comunistas assumiram o poder. No Brasil, no mesmo ano, os operários de São Paulo realizaram uma greve geral que parou a cidade por uma semana. Este espírito de revolta se espalhou por outras cidades do país. Em Joinville, a primeira greve geral ocorreu de 23 de julho a 1º de agosto e os patrões se comprometeram a vender alimentos por preço de custo. A carestia era a grande vilã da classe operária. Os alimentos consumiam 65% dos salários dos trabalhadores.


No centenário destes movimentos, os estudantes do curso de Jornalismo do Bom Jesus/Ielusc realizarão, no dia 17 de outubro, das 19 às 22h30, uma mesa redonda durante a Semana Acadêmica para tratarem deste tema. O evento é aberto ao público em geral e será realizado no anfiteatro, no primeiro andar. Participarão três debatedores: Iara Andrade Costa, Bernardo Joffily e Luiz Gustavo Assad Rupp.

Iara Andrade Costa é formada em história pela USP, (1977), com pós-graduação pela FEPE, de Itajaí (1986), e pela FURJ/Univille, de Joinville (1989), e mestrado pela Universidade Federal do Paraná (1996). Foi professora da rede de ensino estadual e da Univille, onde se aposentou em 2015. Possui trabalhos publicados nas áreas da história do trabalho, da cultura e da educação. Ela irá falar sobre a Greve Geral de 1917.

Bernardo Joffily é jornalista, autor do atlas histórico brasileiro IstoÉ Brasil 500 Anos (1998), da agenda Brasil Outros 500 (2000) e do livro Pequena História de Um Século da Grande Revolução Russa (2017). Na juventude participou da resistência à ditadura, sendo vice-presidente da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) em 1968-1970. Filou-se ao PCdoB em 1973 e é membro do Comitê Central deste partido desde 2005. Morou na Albânia, onde trabalhou na Rádio Tirana, e foi chefe de redação do semanário Tribuna Operária. O tema de sua palestra será Um Século da Revolução Russa.

Luiz Gustavo Assad Rupp é advogado, mestre em Ciências Jurídicas pela Univali e professor do Departamento de Direito da Univille. Também é membro do colegiado do Centro de Direitos Humanos Maria da Graça Braz, assessor jurídico do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Joinville e Região (Sinsej) e conselheiro estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SC). A sua palestra será sobre Conquistas de Direitos e Reformas das Leis Trabalhistas.

O evento conta com o apoio do Bom Jesus/Ielusc e do blog Zarco Livre. Agradecemos a presença de todos os interessados nestes assuntos. Quem quiser comprar o livro Pequena História de Um Século da Grande Revolução Russa poderá adquirí-lo no local.

domingo, 1 de outubro de 2017

O que está por trás do separatismo

Por Domingos Miranda

Júlio César, o maior conquistador do império romano, tinha por tática semear a divisão entre seus inimigos antes de atacá-los. Esta máxima continua valendo até hoje e uma forma de aplicá-la é com o separatismo. A Espanha está agitada nos dia de hoje por causa do plebiscito sobre a independência da Catalunha. O governo espanhol, com a sua truculência de sempre, acabou dando mais força aos independentistas. Mas, no fundo, se a Espanha for dividida, ninguém sairá ganhando, com exceção dos Estados Unidos, que interessa ter nações fracas para dominá-las.



Esta tática foi usada para desmantelar a antiga União Soviética. Os EUA insuflaram a criação de vários países que depois se tornaram inimigos da Rússia. Na mesma época o governo americanotrabalhou para o fim a Iugoslávia. Na época do marechal Tito a Iugoslávia era respeitada na Europa e no mundo ao encabeçar os países não alinhados. Com a desintegração de seu território, na década de 90, surgiram seis novos países e todos eles sem qualquer expressão geopolítica.

Antes dos americanos, o imperialismo inglês usou a mesma tática quando do processo de independência da Índia. A colônia da Ásia, o diamante da Coroa, tinha uma população seis vezes maior que a metrópole, por isso os dominadores dividiram o país em dois (Índia e Paquistão), usando como artifício a religião. Vinte anos depois surgiu um terceiro país com mais de 100 milhões de habitantes: Bangladesh.

Há uma tendência para o separatismo entre os países mais pobres, mas que não levam a nenhum ganho, pelo contrário. Um exemplo marcante nisso é o Iraque, que entrou numa guerra fratricida logo após a invasão dos Estados Unidos e a deposição de Saddam Husseim. Isso facilitou a instalação do Estado Islâmico, um grupo terrorista financiado pela CIA a fim de fazer o trabalho sujo contra os inimigos dos americanos.

No Brasil não estamos livres desta praga. São Paulo fala em criar um Estado independente, no Sul alguns tresloucados levantam esta bandeira e até o Nordeste já almejaseparar-se. A Amazônia poderia ser internacionalizada, segundo já consta em alguns mapas escolares do Tio Sam. Se estas ideias prosperarem, o Brasil ficaria restrito aos Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e o Centro-Oeste. O que ganharíamos com isto: absolutamente nada. Mas os Estados Unidos sim, seria muito beneficiado, pois ficaria mais fácil dominar países fracos.

Não sou monarquista, mas o grande mérito do império foi impedir que o Brasil se fragmentasse, como aconteceu na América espanhola. Não podemos permitir que esta dádiva (um país com grande extensão territorial, com a mesma língua e sem conflitos religiosos) desapareça por causa de ideias estapafúrdias como a de que é mais fácil governar países menores. Se quisermos almejar um protagonismo a nível mundial precisamos garantir a nossa integridade territorial. E para isso é necessário forjar uma ampla frente, suprapartidária, para garantir a nossa soberania. Nosso objetivo é garantir um Brasil livre, justo e soberano. Fora os traidores da pátria.





domingo, 17 de setembro de 2017

Democratizar a televisão é uma necessidade

Por Domingos Miranda

Em 18 de setembro de 1950 entrava no ar o primeiro canal de televisão do Brasil, a TV Tupi de São Paulo. Ela cresceu rapidamente e, depois de 67 anos, é a mais importante arma da direita, responsável pela informação da maioria do povo, que lê pouco e tem baixa escolaridade. O governo do PT não deu a devida atenção a este tema e a Globo continuou com o domínio quase total das transmissões de imagens à distância. É um caso que coloca em risco a segurança nacional. 

Os Estados Unidos dão atenção especial na regulação da mídia televisionada, que está a cargo da Federal Communications Commision (FCC). O órgão é responsável por outorgar concessões e também se dedica a regular o mercado, principalmente evitando a propriedade cruzada de comunicação. Uma mesma empresa não pode ser proprietária de um jornal e de uma estação de TV ou de rádio. Também há regras que impõem limites sobre o número de TV e rádio que uma determinada empresa pode controlar. Isso visa impedir que uma mesma empresa tenha um controle absoluto na audiência.




Na Argentina o casal Kirchner travou uma dura batalha para acabar com o monopólio do grupo Clarin, uma espécie de Globo de lá. Após vários anos de disputa foi aprovada uma lei que obrigou a empresa a se desfazer de vários canais. Com o governo do presidente Macri o grupo Clarin está recuperando parte de seu antigo poder. Na Venezuela o presidente Hugo Chaves enfrentou a maior empresa de televisão daquele país, também com o nome Globo, e não renovou a sua concessão ao fim do contrato.

No Brasil, a criação de um marco regulatório da mídia foi bastante discutida durante os governos de Lula e Dilma Roussef, mas não avançou. Vários setores tem se manifestado sobre o assunto. O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, afirmou que “a regulação da mídia é necessária à liberdade de expressão”. Ele lembrou que a concentração dos meios de comunicação em oligopólios traz riscos à circulação de ideias.

Tanto isto é verdade que os oligopólios da mídia fizeram um massacre em cima da presidente Dilma Roussef, fazendo com que a sua popularidade caísse no segundo mandato, abrindo caminho para o golpe praticado pelo Congresso em 2016. É urgente fazer uma grande mobilização para discutir a regulação da mídia no Brasil. Isto não é censura, como alegam os proprietários dos meios de comunicação, mas permitir que a população tenha acesso a uma informação mais segura. Hoje, quem faz a cabeça dos telespectadores é a Globo, em todos os sentidos, desde a opinião política até moda, passando por gostos musicais e escolha de horários de jogos, atendendo a sua grade de programação.

Para ser livre é necessário ser forte. E para se fortalecer o povo precisa ter acesso à informação confiável. O poder da verdade é o maior poder do universo, pois ele pode libertar. A verdade tem o poder de dar força e confiança aos que necessitam. Fim ao monopólio da Globo.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Não ao Marco Temporal

Por Lizandra Carpes

É possível que nos últimos dias algumas pessoas tenham ouvido falar seja nas redes sociais ou na televisão sobre “O Marco Temporal” para definir demarcações de terras para os povos originários indígenas. Mas, o que é o Marco Temporal e o que significa de fato a terra para os povos originários que citei? Primeiro é necessário relembrar que quando os portugueses chegaram ao Brasil já havia indígenas nestas terras. Quando os chamamos apenas de “índio” fazemos o que é muito comum quando se trata de um assunto que desconhecemos, colocamos todas as etnias e culturas indígenas, (indígenas sempre no plural), dentro de um “mesmo saco”.

 De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ao todo, foram registrados 896,9 mil indígenas, 36,2% em área urbana e 63,8% na área rural. O Portal Brasil revela que esta população abriga 305 etnias e 274 idiomas. Cada um destes povos tem linguagem e culturas específicas e a relação destas pessoas com o sagrado e com a natureza se difere muito da nossa. Mesmo com todo o esforço dos ruralistas de dizimar e reduzir os povos ao dia do índio, eles resistem  e posso afirmar que têm em seus corações e mentes um tesouro que poucos são capazes de entender.

Muitos elementos são sagrados para os povos tradicionais originários indígenas. Um deles e dos mais importantes é a terra (Tekoha) em que nascem e enterram seus mortos, seus ancestrais. Os povos indígenas sempre sabem onde seus ancestrais foram enterrados. Por esta razão mesmo quando são expulsos de suas terras eles precisam voltar e retomar seu espaço, porque ali, naquela terra vive a história de seu povo. A terra também é aquela que dá o alimento, que abriga a semente. A semente que eles carregam para onde vão é nativa, ou seja, crioula sem modificações genéticas como as que consumimos nos dias de hoje. Os espíritos dos que se foram, as forças da natureza e o deus criador de tudo “Nhanderu” estão sempre presentes nas suas rezas, ritos e no dia a dia.

O Marco Temporal surgiu no Supremo Tribunal Federal (STF) por conta do julgamento do caso de uma aldeia, Raposa Serra do Sol, e exclusivamente para este caso. Nessa oportunidade, o STF disse que são consideradas terra tradicionalmente ocupadas pelos índios aquelas em que existiam indígenas na data da promulgação da Constituição (5 de outubro de 1988). No entanto, o STF também deixou claro que não se aplicaria a tese do Marco Temporal nos casos de “renitente esbulho”, ou seja, nos casos em que os indígenas tivessem sido expulsos de suas terras em razão de violência e agressão.

Segundo o Doutor Pedro Pulzzato Peruzzo da OAB de Jabaquara, a tese do Marco Temporal desconsidera todo o histórico de violência e absurdos sofridos pelos povos indígenas e quilombolas e  força o esquecimento da história de lutas. No dia 16 de agosto deste ano houve o julgamento da demarcação das terras indígenas de algumas aldeias. Este processo causou muita apreensão entre os povos indígenas, no entanto, com a quantidade de oito votos a zero, o STF reafirma direitos dos povos originários indígenas. Foi um resultado bom, porém, não é definitivo por conta do parecer assinado por Michel Temer, que tem o potencial de paralisar processos de demarcação e acirrar conflitos e disputas entre índios e não índios.

Diante de tantos desmontes de direitos e o descaso com a classe trabalhadora, as populações mais frágeis, entre elas as indígenas, são as que vão pagar um preço alto, neste caso, inclusive com a própria vida. A história destes povos não começou em 1988.



Fonte: Portal Justificando

domingo, 3 de setembro de 2017

Traidores fazem leilão do Brasil

Por Domingos Miranda

Há duas maneiras de uma potência ocupar um país. Uma é pela guerra e a outra é através da instalação de traidores no poder. Esta segunda opção é a mais econômica, pois se preserva a infraestrutura. Mas, para ser concretizada, é necessário contar com um grupo interno instalados em postos chaves, com seus representantes bem remunerados, para fazer o serviço sujo. No Brasil, isto começou a acontecer há mais de 20 anos, no governos de Fernando Henrique Cardoso, foi interrompido nos governos Lula e Dilma, e recomeçado, com força total, na administração de Michel Temer.

Logo após o golpe que destituiu a presidente Dilma Roussef, Temer, numa ação que lembra a dos bucaneiros (piratas a serviço de um rei) no século 17, numa velocidade espantosa, passou a privatizar nossas principais empresas. A jóia da coroa nesta corrida ao tesouro é a Petrobras, a maior empresa brasileira. Logo de início leiloaram alguns campos do pré-sal que foram arrematados por uma estatal norueguesa. A construção de plataformas marítimas parou e a indústria naval, que montava estes equipamentos, foi sucateada.


Equipamentos novos da Petrobras, na cidade de Rio Grande, estão sendo leiloados como sucata.

A imprensa noticiou, no final de agosto, a agonia da cidade de Rio Grande (RS), onde havia um grande polo da indústria naval com 30 mil operários. Hoje, restam só 10 mil e com perspectiva de fechamento dos estaleiros. E o mais grave. Equipamentos novos, que seriam utilizados em duas plataformas da Petrobras, estão sendo leiloados como sucatas.

A segunda etapa deste desmonte se dá com o anúncio da privatização da Eletrobrás. São 233 usinas de geração de energia, além de seis distribuidoras de energia e 61 mil quilômetros de linhas de transmissão. O arrematador poderá adquirir a maioria das ações da Eletrobrás por R$ 20 bilhões, sendo que a empresa vale mais de R$ 400 bilhões.. O mesmo que aconteceu na privatização da Eletropaulo, em 1998, vendida por R$ 2 bilhões, sendo que valia dez vezes mais.

Nós devemos ter como parâmetro dessa entrega do patrimônio nacional para empresários espertos a privatização da Light, Eletropaulo e CPFL, entre 1996 e 1998, no governo FHC. Todas elas foram vendidas por preços irrisórios, com financiamentos via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), uma empresa estatal. A empresa americana AES Corporation, uma das que arremataram a Light e a Elettropaulo, mais tarde tentou dar o calote no BNDES. No caso da dívida referente à compra da Eletropaulo, ela não pagou e o valor foi transformado em ações em poder do BNDES.

No mínimo, um governo sério, deveria tirar lições destas privatizações anteriores que não trouxeram nenhum benefício para os consumidores e nem para a União. Pelo contrário, os investimentos pós privatização foram reduzidos, levando às constantes interrupções de fornecimento de eletricidade.

Energia é uma questão estratégica para qualquer país. Tanto isto é verdade que nos EUA, pátria do neoliberalismo, a geração de energia elétrica está nas mãos de empresas estatais. O que o governo está fazendo no Brasil é um crime de lesa-pátria. No futuro, quando a democracia voltar a imperar nesta terra, é necessário que os responsáveis por estes abusos sejam levados ao banco dos réus.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O SILÊNCIO E A INÉRCIA DE QUEM PERGUNTA

Por Valdete Daufenback

Constantemente nas redes sociais, a cada ato do (des)governo Temer e de todo o Congresso e Judiciário, a cada agressão contra a cidadania, contra os direitos conquistados, as perguntas repetidas tendem a intensificar o significado do silêncio que outrora seria impensável:

Por que a população não está na rua? 
Por que não se reage diante de tantas injustiças? 
Qual a razão desta imobilidade social?

Esta abordagem questionadora a partir destes fragmentos teóricos pode ser muito interessante e necessária, mas é, ao mesmo tempo, intrigante pela maneira como se atribui ao outro a responsabilidade em mobilizar as manifestações populares pelo seu próprio  descontentamento político. Quem pergunta nas redes sociais talvez tenha a intenção de fazer uma chamada para o debate no campo intelectual, reflexão sempre bem-vinda, mas com pouca perspectiva de iniciar um movimento que resulte em uma ação prática no mundo real.

Evidentemente, que não se pode ignorar o papel cognitivo de uma reflexão teórica pela sua capacidade de permitir o conhecimento, mas não significa que por si só, estes fragmentos irão colaborar na construção da práxis transformadora.

Geralmente estas perguntas partem de quem se encontra numa bolha de ideias protegida de riscos que afetam a sua vida profissional e que tem direitos reservados pelas condições conquistadas, realidade diferente do trabalhador que vê a perda gradativa de seus direitos e sem poder se manifestar porque vive sob pressão e submetido a constante vigilância dentro e fora do mundo do trabalho. A perda do emprego se constitui um problema muito maior e irreparável, seria uma ameaça imediata à sua sobrevivência.

A intenção aqui não é trazer à baila os motivos que golpearam a democracia, mesmo porque as manobras que começaram em 2013 com os “vinte centavos” ainda estão em curso arrebentando cofres públicos em benefício da uma quadrilha que, como no jogo da dança das cadeiras, permanecem na brincadeira aqueles que manifestam um espírito agressivo e estratégias capazes de estabelecer uma relação que se pareça amistosa no processo da disputa.

Quem mais perdeu direitos nesta brincadeira toda foram os trabalhadores, aqueles responsáveis pela produção de riquezas, aqueles que transformam a matéria prima em produtos com o suor de seu rosto e de suas mãos calejadas (mesmo que simbolicamente, diante dos recursos tecnológicos das grandes empresas de produção fabril). Considerando que o trabalho também produz o trabalhador, este, visando a sobrevivência, aliena-se a si mesmo para atender aos interesses do capital e, ao mesmo tempo, vive com medo de que um concorrente possa ocupar a sua vaga caso não seja mais tão produtivo para corresponder às expectativas de quem o contratou.

Nesta perspectiva, seria pedir demais que os trabalhadores fossem para as ruas protestar contra a perda dos direitos. O eco do seu silêncio incontido diante de atual situação do (des)governo Temer precisa ser compreendido na dimensão teórica no mundo das ideias. Somos um país que historicamente pratica a violência contra trabalhadores, herança de séculos de escravidão legitimada por um poder socioeconômico. Somos uma população desestimulada à participação nas esferas públicas e por não compreender as nuances da política renega a democracia ao preferir governos autoritários que prometem a promoção da economia e da segurança, mesmo que seja pela ação da exclusão e uso da violência. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A justiça falha quando tem lado

Por Domingos Miranda

A justiça no Brasil virou piada. Os juízes e procuradores são símbolos dos “marajás” no funcionalismo público. Muitas de suas sentenças e ações causam espanto e uma ex-ministra da Justiça da Alemanha, Herta Däubler-Gmelin, disse que “aqui é outro mundo”. Durante visita ao nosso país acrescentou: “Então eu posso entender a certa descrença que há aqui no atual desempenho do Judiciário, de alguns juízes e juízas”. Quando o povo deixa de acreditar na justiça fica muito mais difícil fazer valer a lei.

Ao longo da história vemos que a justiça tem lado e já cometeu erros assombrosos. Uma das sentenças mais absurdas aconteceu há 90 anos, nos Estados Unidos, quando os imigrantes italianos Nicolas Sacco e Bartolomeu Vanzetti foram condenados à morte. Houve protestos dos operários e da sociedade em diversas cidades do mundo pedindo clemência. Mas a Suprema Corte e o presidente dos Estados Unidos se negaram a mudar a pena e, no dia 23 de agosto de 1927, os dois líderes operários foram executados na cadeira elétrica.

Jornal americano noticia a morte dos dois líderes operários.

Nicolas Saco era filho de camponeses pobres e emigrou da Itália para os EUA em 1908. Chegou a passar fome e trabalhou em diversas fábricas. Logo se envolveu nas lutas por melhores condições e trabalho e passou a atuar no sindicalismo revolucionário e anarquista.

Bartolomeu Vanzetti teve envolvimento com ideias religiosas e humanistas na juventude. Quando chegou na América viu “todas as brutalidades da vida, todas as injustiças e as depravações em que se debate tragicamente a humanidade”. Nesta época se desligou de quaisquer instituições religiosas e passou a estudar teóricos como Bakunin, Marx, Kropotkin, Gorki, Tolstoi, entre outros. Lia estas obras durante a madrugada, após as longas jornadas de trabalho na fábrica. Tornou-se importante liderança do movimento operário e um convicto anarquista.

Na década de 20 o movimento operário crescia e a polícia realizava verdadeiras caçadas aos seus líderes. Somente no dia 2 de janeiro de 1920 foram realizadas batidas policiais em 33 cidades e expedidos 6 mil pedidos de prisão. Neste ambiente de repressão aconteceu um assalto a uma fábrica de calçados na cidade de South Braintree, no Estado de Massachussets, onde foram mortas duas pessoas. Vinte dias depois Sacco e Vanzetti foram presos nas proximidades de Boston. Inicialmente foram acusados de porte ilegal de armas – um costume comum para a maioria dos americanos – e depois acusados de dois assassinatos, ocorridos em abril do mesmo ano.

A imprensa conservadora logo encontrou nos dois operários o bode expiatório para aqueles conflitos sociais que ocorriam e tratava os líderes anarquistas como “bandidos italianos”. Em pouco tempo a classe média já tinha tomado um posicionamento contrário aos réus. Mais de 107 pessoas testemunharam que os acusados não estavam no local do crime. Nada disso adiantou. Mesmo sem provas, o juiz condenou os dois à pena de morte.

O jurista Edmund Morgan, da Universidade de Harvard, investigou o processo durante vários anos e, em 1948, chegou à conclusão que a justiça havia cometido um grande erro. Ele disse que Sacco e Vanzetti foram “vítimas de uma sociedade preconceituosa, chauvinista e perversa”. Em 1977, cinquenta anos depois da execução, o governador de Massachussets, Michael Dukakis, promulgou um documento absolvendo os dois condenados.
 
A história de Sacco e Vanzetti virou filme e tema de música da cantora Joan Baez

Passaram-se os anos e o preconceito continua tendo um peso enorme na mente dos juízes, principalmente no Brasil. Condenar o réu sem provas – como aconteceu com Sacco e Vanzetti – é o maior absurdo dentro do judiciário e tal prática deve ser banida para sempre.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Anita Garibaldi e outras heroínas brasileiras

Por Domingos Miranda

No dia 4 de agosto de 1849 morria, na Itália, a catarinense Anita Garibaldi, a maior guerreira de nossa história. Ela, ao lado de seu marido Giuseppe Garibaldi, participou de lutas libertárias no Brasil, Uruguai e Itália, sendo reconhecida como “a heroína de dois mundos”. No entanto, por mais de um século seu nome ficou na penumbra por causa de preconceitos, principalmente por causa da igreja católica, que não aceitava o seu relacionamento com o companheiro, mesmo depois do
desaparecimento de seu primeiro marido. Por isso Anita, cujos restos mortais estão em terras italianas, é mais reverenciada no exterior do que em sua terra natal. 

Anita Garibaldi participou de lutas heróicas e mostrou uma coragem fenomenal, mas para um país machista, isso não era suficiente para derrubar as barreiras do preconceito. Foi preciso contar com o nome de seu marido, considerado o maior herói da unificação italiana e da Revolução Farroupilha, para que nossa heroína passasse e figurar nos compêndios escolares.

Giuseppe Garibaldi carrega o corpo de Anita enquanto era perseguido pelos inimigos.


Outras representantes do sexo feminino tiveram destaque no avanço das lutas sociais e continuam no ostracismo. Basta citar alguns nomes: Maria Ortiz, que liderou a expulsão dos invasores holandeses em Vitória (ES); Luísa Mahin, que participou de todas as revoltas de escravos em Salvador, no início do século 19; Leolinda Daltro, defensora dos direitos das mulheres e dos índios há mais de cem anos; Maria Lacerda de Moura, uma fervorosa militante do movimento operário na primeira metade do século\20.

Bem perto de nós está um exemplo concreto da invisibilidade de alguns personagens de nossa história por causa do preconceito. A primeira mulher imigrante a pisar nas terras onde seria Joinville foi a professora, jornalista e escritora alemã Julia Engell-Günther. No início de 1850 viajou para Santa Catarina vestida como homem, acompanhando o agrimensor Hermann Günther, encarregado pela companhia alemã de Hamburgo de montar a infraestrutura capaz de receber os imigrantes que começariam a chegar no ano seguinte. Com a demissão de seu marido, Julia mudou-se para Limeira,
interior de São Paulo, onde montou uma escola. Mesmo tendo ficado pouco mais de um ano em Joinville, a jornalista escreveu artigos para jornais alemães incentivando a imigração e foi a autora dos desenhos das primeiras casas construídas no meio da selva.


Julia Engell-Günther, uma feminista no século 19.

Em 1859, Julia, seu marido e o filho voltaram para a Alemanha, onde ela escreveu livros e contos abordando a realidade brasileira. Também foi uma ativa colaboradora dos jornais socialistas, sempre ressaltando a importância da participação da mulher nos destinos da sociedade. Com todo este cabedal de conhecimento, Julia Engell permaneceu uma desconhecida para os historiadores porque, em 1853, o capitão Theodor Rodowicz-Oswiecimsky escreveu um livro sobre os primórdios de Joinville e citou que ela era “amásia” de Hermann Günther. Isto foi suficiente para que a sociedade
conservadora e puritana apagasse o nome desta escritora da história. Há cerca de 40 anos a historiadora Elly Herkenhoff a retirou do esquecimento.

São casos como este que mostram que a sociedade ainda apresenta um certo ranço machista, não dando o devido valor a mulheres de valor que lutaram por nobres ideais. Que não só o nome de Anita Garibaldi seja homenageada no panteão das heroínas, mas todas as mulheres que contribuíram para uma sociedade mais justa e igualitária.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

PARA QUE SERVE UMA ESCOLA SEM ALUNOS?

Por Coletivo Formigueiro

Era uma escola muito engraçada, não tinha professores, não tinha alunos, não tinha nada. Essa poderia ser apenas uma paródia dos versos de Vinícios de Morais, para falar de mais uma escola sucateada. Mas é na verdade o destino de diversas escolas catarinenses.

Transformadas em meros números, as escolas agora precisam “render” pelo menos 120 matrículas, do contrário, fim da linha. Esse é o limite de viabilidade das escolas determinado pelas Gerências Regionais de Educação (Gered).

Seguindo a lógica do mercado, o governo do Estado de Santa Catarina consulta a comissão do Plano de Ofertas Educacionais (POE), vinculada à Secretaria de Estado da Educação (SED), para determinar quais escolas continuam abertas e quais serão descontinuadas. Somente em Joinville, com a “ociosidade” de aproximadamente 13 mil vagas, o governo do estado, nos últimos anos, fechou cinco estabelecimentos de ensino: Escola Rui Barbosa, Escola Conselheiro Mafra, Escola Monsenhor Sebastião Scarzello, Escola Plácido Xavier Vieira e Escola Dr. Elpídio Barbosa. Além da queda da demanda, o fechamento destas escolas é justificado pela dificuldade em recuperar estruturas físicas de prédios danificados pela ação do tempo.

Na região Norte de Santa Catarina, além de Joinville, outros municípios foram afetados com o fechamento de escolas, enturmação e municipalização. Em Jaraguá do Sul: Escola Erich Gruetzmacher, Escola Giardini Lenzi e Escola Professora Lília Ayroso Oschsler; em Schroeder: Escola Miguel Couto; em Corupá: Escola São José.

Em termos numéricos, dados do último Censo Escolar apontam que, em Santa Catarina, entre 2015 e 2016, as matrículas no Ensino Médio encolheram de 197 mil para 191 mil. Os dados à disposição não detalham as razões da queda nas matrículas dos jovens com idade entre 15 e 17 anos, os quais deveriam cursar o Ensino Médio. Poderia ser a baixa atratividade das aulas, ingresso no mercado de trabalho, queda da taxa de natalidade, migração. Mas estas possibilidades não são tão relevantes para as ADR’s. O que importa, ao que parece, é a economia de recursos públicos na educação: fim do pagamento de aluguéis de prédios, paralisação de reformas, e demissão de professores temporários. Com esses números somados às diminuições de alunos no Ensino Fundamental, o chamado reordenamento escolar avança pelo estado

Na outra extremidade dessa conta o Censo Escolar mostra que em 2016, em Santa Catarina, houve um aumento de 10 mil matrículas na pré-escola. Mas há também um déficit de 78 mil vagas em creches, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015, divulgado em março de 2017. Em breve deverão ser divulgados dados do Censo 2017, realizado de maio a julho.

Precisamos somar esforços para que a educação escolar seja prioridade dos governos e, ao invés de fechar escolas sob o pretexto de economizar recursos financeiros, que seja investido, prioritariamente, no futuro de nossas crianças e jovens, a exemplo de outros países que obtiveram resultados econômicos positivos a partir da educação.

COLETIVO FORMIGUEIRO JOINVILLE

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Há exatos 100 anos Joinville vivia sua primeira greve

Por Domingos Miranda

Não existe prisão para as ideias, elas circulam livremente. Assim aconteceu em 1917, um dos anos em que a classe operária abalou o mundo e o Brasil. Em março, depois de enormes paralisações nas fábricas de São Petersburgo e Moscou, na Rússia, uma das monarquias mais sanguinárias da Europa foi derrubada. Em outubro daquele mesmo ano, os trabalhadores, sob a liderança de Lênin e do Partido Bolchevique, assumiram o poder. Estes fatos se alastraram como fogo em palha seca, trazendo esperança para os oprimidos de todo o mundo. Em São Paulo, em 9 de julho, os operários de uma fábrica têxtil entraram em greve por melhoria nos salários e nas condições de trabalho. Mesmo com a repressão violenta a paralisação se espalhou e a cidade parou por uma semana. Em 23 de julho, os trabalhadores de Joinville fizeram a sua primeira greve, atingindo várias fábricas.




O mais surpreendente na greve de Joinville foi ela ter acontecido mesmo não havendo qualquer sindicato na cidade. Mas a notícia de que os grevistas de São Paulo haviam conseguido uma bela vitória, obtendo 20% de aumento nos salários, inflamou o ânimo dos trabalhadores em vários cantos do país. Nesta época, Joinville já era a cidade mais industrial de Santa Catarina. Aqui havia fábricas de meias, de tecidos de algodão, de velas, de pregos, arame farpado e telas, fósforos, móveis e tinha engenhos de erva-mate, serrarias e um moderno moinho de trigo. A antiga Colônia Dona Francisca foi colonizada por imigrantes suíços e alemães e era conhecida como a cidade da ordem e do trabalho. Artigos em jornais diziam que “o operário joinvilense é feliz e não se prestará nunca a promover desordens grevistas”.



Mas não era bem assim que pensava o trabalhador. Com a eclosão da primeira guerra mundial o país aumentou a exportação de alimentos e os preços dispararam. Para se ter uma ideia da situação, basta ver que entre 1914 e 1923, o salário no país havia subido 71% enquanto o custo de vida aumentou 189%. Portanto, quando a greve em Joinville se espalhou por várias fábricas pegou os empresários desprevenidos. A paralisação se encerrou somente no dia 1º de agosto sob a ameaça de demissão em massa. A historiadora Iara Andrade Costa escreveu que “a notável mobilização geral dos operários” fez com que os empregadores assumissem o compromisso de vender alimentos por preço de custo. Isto foi importante, pois os trabalhadores gastavam 65% dos salários com alimentos.

Como o objetivo fundamental do capitalismo é o lucro, obtido em cima de salários aviltados, os empresários se mobilizaram para evitar que novas paralisações ocorressem. Foram criadas “listas negras”, com o nome de lideranças dos grevistas que não mais conseguiam emprego nas fábricas. Já os trabalhadores tiraram uma grande lição: sem união não se alcança qualquer benefício. E isto ficou evidente ao longo dos cem anos seguintes, quando se conseguiu estipular as oito horas de trabalho por dia, férias, aposentadoria, salário-maternidade, 13º etc. A luta não para, pois agora o Congresso acaba de votar o desmonte da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). No entanto, os trabalhadores saberão dar uma resposta a altura, como fizeram em 1917.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Reforma Trabalhista: Agora trabalhador deve pagar para entrar com processo judicial

Por Jeison Giovani Heiler

A reforma trabalhista foi aprovada no Senado já faz uma semana. E entorpecidos os trabalhadores parecem ainda não ter atinado para o seu verdadeiro significado.

Aos poucos a mídia vai mostrando algumas das [des] vantagens da reforma trabalhista. Uma delas: Agora trabalhador deve pagar para entrar com processo judicial. Além das custas, e dos honorários do advogado do patrão (sucumbência) o trabalhador vai ter que arcar com custos como perícias para avaliar insalubridade, que podem chegar a R$ 5 mil, segundo matéria da Folha de São Paulo [que até semana passada dizia que a reforma seria boa para a o trabalhador].

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Evidentemente que a ideia por detrás desta alteração na lei que garantia justiça gratuita na justiça do trabalho para o trabalhador, está o desejo de desencorajar o trabalhador a ingressar com ações trabalhistas, que além de demoradas, agora passam a custar também no seu bolso.

Um outro efeito desta alteração é forçar o trabalhador a abrir mão de seus direitos, inclusive constitucionais, em acordos na justiça do trabalho, para fugir às custas como perícias ou o risco de ter que pagar os honorários do advogado do patrão (sucumbência) caso venha a perder a ação.

Quer dizer, se antes da reforma muitas vezes o trabalhador partia para um acordo para abreviar a espera de uma sentença definitiva que podia chegar a muitos anos, agora além da demora há um novo estímulo para que abra mão de seus direitos, o fato de fugir ao risco de acabar pagando pela ação a que tem direito constitucional (art. 7º, XXIX, CF).

A reforma trabalhista foi levada a termo como o discurso cínico do governo de que representariam a modernização das leis trabalhistas e que não significariam a retirada de direitos. Infelizmente o trabalhador vai ter que aprender na pele que não deveria ter confiado neste discurso. Agora direitos conquistados com muito luta caem de maduros e se desintegram no solo. Logo o cheiro da podridão e a sujeira alterarão o humor dos trabalhadores e da massa de indivíduos explorados em um mercado de mão de obra a cada vez mais precário. Cabe saber se deste frutos caídos e apodrecidos germinarão sementes para um futuro de novas lutas e conquistas.


Difícil acreditar.

domingo, 9 de julho de 2017

A verdade custa a aparecer

Domingos Miranda

No meio desta catástrofe surgida após o golpe que destituiu Dilma Roussef da presidência surge um fato positivo. As pessoas mais esclarecidas passaram a ver como funciona as entranhas do poder. Mesmo que o jornalismo oficial tenta passar uma visão mais amena da situação, não há como deixar de sentir o odor fétido de um corpo que começa a entrar em putrefação. Há de tudo nesta trama mafiosa, desde políticos envolvidos com o tráfico de drogas, passando pela interferência da CIA e FBI nos destinos do país até a compra despudorada dos votos de deputados na busca de seus interesses. A cereja neste bolo é a participação aberta da grande mídia neste complô. Ao invés de mostrar os fatos o jornalismo passou a fazer parte da política. E aí a verdade é escamoteada.

Chacrinha tinha um velho bordão: na televisão nada se cria, tudo se copia. Na política não é diferente. Sabemos que a interferência americana no Brasil é coisa antiga. Aqui quero recordar o que aconteceu na administração do presidente Ronald Reagan, na década de 80. Anticomunista fanático, Reagan burlou a lei para financiar grupos de mercenários, conhecidos como Contras, que eram uma espécie de Estado Islâmico latino-americano. Os contras praticavam todo tipo de terrorismo no território da Nicarágua na tentativa de derrubar o governo sandinista, que assumiu o poder após a vitória da guerrilha, em 1979. A família Somoza, colocada no poder na década de 30 pelos EUA, foi responsável por uma das ditaduras mais violentas do mundo. Então era necessário arrumar dinheiro por debaixo do pano para financiar “os guerrilheiros da liberdade”, pois o Congresso americano havia proibido qualquer tipo de ajuda a estes criminosos.


Uma das saídas foi a venda clandestina de armas para o Irã, cujo governo dos aiatolás era considerado o maior inimigo dos americanos. O dinheiro desta transação era repassado através de contas secretas para os contras. O coronel americano Oliver North foi o responsável por esta transação e se tornou o queridinho da imprensa quando foi obrigado a prestar declarações na CPI do Congresso. Mas, havia um outro tipo de financiamento aos contras e que veio a público somente em 1996. A CIA passou a ser cúmplice no contrabando de toneladas de cocaína a ser vendida nos Estados Unidos. A denúncia foi feita pelo jornalista Gary Webb, no jornal San José Mercury News.

Diferentemente do que aconteceu vinte anos antes, quando os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post, denunciaram as falcatruas do presidente Nixon e se tornaram heróis nacionais, a vida de Webb virou um inferno após denunciar o envolvimento da CIA com o tráfico. Ele foi demitido de seu jornal e não conseguiu arrumar um novo emprego. Pouco tempo depois o jornalista apareceu morto. O caso virou filme, “O Mensageiro” (Kill the Menseger), que trata da vida de Gary Webb e sua investigação. O economista Paul Krugman, ao fazer um comentário sobre o filme, botou o dedo numa ferida bem atual e disse que a grande mídia hoje faz política, não jornalismo.

Esta ligação da CIA com narcotraficantes voltou a ser manchete por ocasião da guerra aos barões da cocaína no México. A tevê Al Jazzeera, uma das mais prestigiadas do mundo, publicou declaração de um funcionário do governo do Estado de Chihuahua, na fronteira com os EUA, mostrando que a agência de informações americana “não luta contra os traficantes, os administra”. Guillermo Terrazas Villanueva, coordenador de comunicação de Chihuahua, não foi desmentido.

Portanto, voltando ao Brasil, quando vemos os narcotraficantes obtendo cada vez mais espaço na sociedade, passamos a indagar se não há os tentáculos da CIA nesta história? Por que escolheram para ministro da Justiça um advogado do PCC e que depois foi conduzido ao Supremo Tribunal Federal (STF)? Porque a Justiça não pune com rigor os envolvidos no transporte de centenas de quilos de cocaína? Por que seriam de políticos? A imprensa abandonou o seu papel investigativo, pois faz parte do complô. Alguns que foram mais a fundo nesta questão tiveram destino semelhante ao do jornalista americano Gary Webb. O presidente Lincoln dizia que “não há como esconder a verdade por todo o tempo”. Ligando um fato com os outros começamos a visualizar os contornos macabros dos reais objetivos que levaram ao impeachment de Dilma. Um dia a história contará a verdade.