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terça-feira, 13 de junho de 2017

Acertando contas com a história

Por Domingos Miranda

Quase todo o mundo já ouviu esta frase: “O melhor juiz é a história”. Isto quer dizer que o tempo ajuda a peneirar o joio do trigo na avaliação dos fatos. Muitos líderes que ontem foram venerados, hoje são marginalizados por quem pesquisa os acontecimentos passados. Temos exemplos recentes. O general Garrastazu Médici, que angariou uma fugaz popularidade por conta do milagre econômico e pela conquista do tricampeonato da Copa Jules Rimet, em 1970, hoje é lembrado apenas como símbolo da tortura que dilacerou a sociedade brasileira nos anos de chumbo da ditadura. O general Franco, que tomou o poder na Espanha após desencadear um golpe militar que levou a três anos de uma das guerras civis mais sangrentas da Europa, com a democratização seu nome foi execrado pela sociedade. Atualmente não existe nenhum monumento ou localidade pública com o seu nome.

Monumento em homenagem a Carlos Lamarca e seu companheiro de luta Zequinha Barreto, na localidade de Pintadas, município de Ipupiara, Bahia.

O Brasil, ao longo de sua existência evitou mudanças na sociedade, As duas únicas exceções foram na Revolução de 30, que abriu as portas para a industrialização, e o Golpe Militar de 64, que evitou o avanço das forças progressistas. Com a redemocratização, em 1985, houve um realinhamento dos cristais, colocando-se algodão para evitar qualquer rachadura nas forças derrotadas. O que se viu foi uma mistura de democracia com penduricalhos da ditadura. Na Academia Militar de Agulhas Negras, por exemplo, ainda se comemora o 31 de março como efeméride que marcou a salvação da nação das garras do comunismo. Em Joinville, um dos grandes bairros leva o nome de Costa e Silva enquanto uma das principais escolas é denominada Garrastazu Médici. Paulo Freire, um dos maiores educadores brasileiros e reverenciado no mundo todo, não foi lembrado para ser nome de nenhuma escola no município.

Por conta desta apatia das autoridades em fazer uma reciclagem em nosso passado, hoje, muitos jovens falam da ditadura militar como exemplo de virtudes, esquecendo-se dos males que gerou, principalmente para a população mais pobre. Chega-se ao absurdo de, em algumas manifestações populares, verem-se faixas pedindo a volta do regime militar.


Frei Bertolomeu (direita) mostra o local exato da execução de Lamarca e Zequinha. Ao pé da cruz a pedra onde Lamarca descansava a cabeça antes de ser morto.

Felizmente, algumas vozes se levantam contra esta amnésia que tentam implantar sobre o nosso passado recente. Por incrível que possa parecer, uma das medidas mais efetivas contra a deturpação histórica partiu de um religioso, o bispo de Barra, na Bahia, dom frei Luiz Flávio Cappio. Este franciscano que passou mais da metade de sua vida assistindo os pobres desvalidos que moram nas margens do rio São Francisco, decidiu contar a verdade para uma população que só tinha ouvido um lado da história, aquela contada pelos poderosos.

Com o dinheiro obtido do Prêmio Kant, dado pela Fundação Kant, na Alemanha, para aquelas personalidades que se destacam pelo engajamento corajoso na defesa de grupos sociais marginalizados politicamente e socialmente, frei Luiz Cappio decidiu criar a Capela dos Mártires. Lá foi construído um memorial lembrando os militantes políticos e líderes de agricultores que deram sua vida em defesa da justiça social. Entre os homenageados estavam o capitão Carlos Lamarca e o líder operário Zequinha Barreto, assassinados pelas forças da repressão, em 1971, no exato local onde foi levantada a capela, Quem toma conta do memorial é o frei Bertolomeu Gorges, nascido na cidade catarinense de São Pedro de Alcântara e que há 45 anos presta trabalho missionário no médio São Francisco.

Dom Luiz Cappio explica que decidiu esclarecer os moradores sobre estes líderes assassinados e que eram mostrados como “terroristas” desde a época da ditadura militar. Todos os anos são realizadas romarias até a Capela dos Mártires onde são prestadas homenagens aos mortos e levada solidariedade à luta daqueles que enfrentam a arbitrariedade dos poderosos e grileiros. Assim, com um exemplo prático, um bispo mostra que é possível derrubar o véu que tenta esconder a verdade dos fatos. Se os governantes democráticos tivessem a mesma ousadia, a história contada poderia ser bem diferente. Assim a história vai iluminando o caminho tortuoso de nossa sociedade.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo relato e pelo esforço historico de reconstruir estas importantes pegadas na historia de lutas no Brasil

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