Por Valdete Daufenback
O mito fundador, atribuição à origem de um lugar e
à evidência da representação identitária de um coletivo, se constitui de uma
narrativa que, além de ser autoritária, elege cor, classe social e é também
machista e sexista. Portanto, exclui uma parte para depois incorporar nos
excluídos o sentimento de pertencimento periférico com o intuito de fazer
parecer a existência de uma unidade harmoniosa, uma representação do espírito positivista
Comtiano, uma elevação da ordem coletiva que se desenvolve por estágios.
No vida profissional, em vários municípios de Santa
Catarina, ouvi muitas histórias de pessoas que se reconheciam como descendentes
daqueles que colonizaram a região, ou seja, parafraseando o filósofo Walter
Benjamin, herdeiros daqueles que venceram e dividiram entre si os despojos do
resultado da marcha triunfal. No entanto, na sua concepção simbólica, esses
herdeiros narradores de histórias não tinham consciência de que traziam consigo
a marca da violência, às vezes em seu próprio sangue, ao verbalizar que sua
bisavó ou sua avó fora raptada quando menina e ficou presa na posse dos
“desbravadores imigrantes” até ela se acostumar com o raptor que a tinha como
sua “mulher”, a mãe se seus filhos, frutos de violência sexual, estupro e maus
tratos. Seus netos e bisnetos ao narrar a história com satisfação, como uma
proeza de virilidade patriarcal, contavam do ponto de vista masculino, sem se
questionar sobre o sofrimento que foi esta relação silenciosa por parte daquela
mulher que fora tirada à força de sua aldeia e sujeitada pelo poder da suposta
superioridade “racial” europeia.
Intrigada com cada histórias que ouvia, passei a
prestar mais atenção nas indicações comemorativas e na placas de homenagens aos
desbravadores, já que aparecia o nome (masculino) e sobrenome, com raras
exceções, um complemento como nota de roda pé: “e suas respectivas esposas”,
mas elas não tinham nome. Então anotava estes nomes e acaba descobrindo o nome
delas junto ao nome deles na lápide do cemitério, geralmente atrás de uma
antiga igreja. Ou seja, elas passavam a existir, reconhecidamente, depois de
mortas. A elas não foi dado o reconhecimento de sua importância na construção
local, reservando este “mérito” aos detentores dos despojos, aqueles que
venceram porque alguém foi vencido.
Mas não é preciso ir muito longe para identificar a
narrativa do mito fundador carregada de sentido de exclusão. Um município pode
conter em suas entranhas histórias que edificam os vencedores em monumentos sem
mostrar o conflito com aqueles que foram vencidos, que omita parte de sua experiência
histórica porque não lhe convém, como por exemplo, eleger a data comemorativa
alusiva a seu aniversário ao dia da chegada da primeira barca com imigrantes
europeus, quando o local ainda pertencia a uma província (município) povoada,
em sua maioria, por pescadores e agricultores, nada nobre para quem mais tarde reivindica
para si o título de Manchester (sic). Subsumir no mito fundador a data de sua
emancipação política (que somente viria acontecer quinze anos após) produz um
alento aos herdeiros daqueles que habitam nos cemitérios, pois o sentimento de
grandiosidade e o imperativo da superioridade étnica foram salvos.
O mito fundador permite ainda a exclusão do caldo
de cultura de um local separando vivos e mortos, na vida real, depois na
história, em locais definidos para cada classe, etnia, convicção religiosa.
Escravo também não tem sobrenome, só existe porque tem um “senhor”, (assim como
as esposas mencionadas acima), por isso não deixaram registros de glória,
portanto, não são merecedores de homenagens. Mas pode ser que um dia alguém
descubra que em um cemitério destinado a imigrantes, jazem escravos sem nomes
que mereçam uma placa e homenagem no dia das comemorações do aniversário da
“fundação” da Colônia, para o desconforto de muitos herdeiros dos vencedores.
Assim, para cada descoberta do passado histórico, o
mito fundador precisa criar novos adjetivos para a sua reprodução, pelo
contrário, de acordo com Benjamin, a história poderá ser iluminada pela
centelha de lucidez provocada por historiadores que penteiam a contrapelo os
vestígios dos registros deixados pela humanidade.
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