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terça-feira, 7 de março de 2017

Para que servem as datas comemorativas?

Por Valdete Daufenback

O mito fundador, atribuição à origem de um lugar e à evidência da representação identitária de um coletivo, se constitui de uma narrativa que, além de ser autoritária, elege cor, classe social e é também machista e sexista. Portanto, exclui uma parte para depois incorporar nos excluídos o sentimento de pertencimento periférico com o intuito de fazer parecer a existência de uma unidade harmoniosa, uma representação do espírito positivista Comtiano, uma elevação da ordem coletiva que se desenvolve por estágios.

No vida profissional, em vários municípios de Santa Catarina, ouvi muitas histórias de pessoas que se reconheciam como descendentes daqueles que colonizaram a região, ou seja, parafraseando o filósofo Walter Benjamin, herdeiros daqueles que venceram e dividiram entre si os despojos do resultado da marcha triunfal. No entanto, na sua concepção simbólica, esses herdeiros narradores de histórias não tinham consciência de que traziam consigo a marca da violência, às vezes em seu próprio sangue, ao verbalizar que sua bisavó ou sua avó fora raptada quando menina e ficou presa na posse dos “desbravadores imigrantes” até ela se acostumar com o raptor que a tinha como sua “mulher”, a mãe se seus filhos, frutos de violência sexual, estupro e maus tratos. Seus netos e bisnetos ao narrar a história com satisfação, como uma proeza de virilidade patriarcal, contavam do ponto de vista masculino, sem se questionar sobre o sofrimento que foi esta relação silenciosa por parte daquela mulher que fora tirada à força de sua aldeia e sujeitada pelo poder da suposta superioridade “racial” europeia.

Intrigada com cada histórias que ouvia, passei a prestar mais atenção nas indicações comemorativas e na placas de homenagens aos desbravadores, já que aparecia o nome (masculino) e sobrenome, com raras exceções, um complemento como nota de roda pé: “e suas respectivas esposas”, mas elas não tinham nome. Então anotava estes nomes e acaba descobrindo o nome delas junto ao nome deles na lápide do cemitério, geralmente atrás de uma antiga igreja. Ou seja, elas passavam a existir, reconhecidamente, depois de mortas. A elas não foi dado o reconhecimento de sua importância na construção local, reservando este “mérito” aos detentores dos despojos, aqueles que venceram porque alguém foi vencido.

Mas não é preciso ir muito longe para identificar a narrativa do mito fundador carregada de sentido de exclusão. Um município pode conter em suas entranhas histórias que edificam os vencedores em monumentos sem mostrar o conflito com aqueles que foram vencidos, que omita parte de sua experiência histórica porque não lhe convém, como por exemplo, eleger a data comemorativa alusiva a seu aniversário ao dia da chegada da primeira barca com imigrantes europeus, quando o local ainda pertencia a uma província (município) povoada, em sua maioria, por pescadores e agricultores, nada nobre para quem mais tarde reivindica para si o título de Manchester (sic). Subsumir no mito fundador a data de sua emancipação política (que somente viria acontecer quinze anos após) produz um alento aos herdeiros daqueles que habitam nos cemitérios, pois o sentimento de grandiosidade e o imperativo da superioridade étnica foram salvos.

O mito fundador permite ainda a exclusão do caldo de cultura de um local separando vivos e mortos, na vida real, depois na história, em locais definidos para cada classe, etnia, convicção religiosa. Escravo também não tem sobrenome, só existe porque tem um “senhor”, (assim como as esposas mencionadas acima), por isso não deixaram registros de glória, portanto, não são merecedores de homenagens. Mas pode ser que um dia alguém descubra que em um cemitério destinado a imigrantes, jazem escravos sem nomes que mereçam uma placa e homenagem no dia das comemorações do aniversário da “fundação” da Colônia, para o desconforto de muitos herdeiros dos vencedores.

Assim, para cada descoberta do passado histórico, o mito fundador precisa criar novos adjetivos para a sua reprodução, pelo contrário, de acordo com Benjamin, a história poderá ser iluminada pela centelha de lucidez provocada por historiadores que penteiam a contrapelo os vestígios dos registros deixados pela humanidade. 

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