Por Elza Daufenbach
No quadro caótico da política nacional pós-golpe, em que escândalos quase diários envolvendo políticos, empresários, juristas, burocratas e outros cidadãos vêm demolindo a economia e a credibilidade do país e agredindo o sonho de milhões de pessoas que lutam por um país mais justo e ético, o boicote aos produtos Disney proposto pelo pastor Silas Malafaia e pelo deputado federal (e pastor) Victório Galli soa apenas bizarro quando descontextualizado do conjunto de ações de ataques às lutas sociais perpetradas por lideranças homofóbicas.
Não que a discussão sobre os personagens de Walt Disney seja algo novo. Em 1971, um ano após Salvador Allende assumir a presidência do Chile, Ariel Dorfman e Armand Mattelart publicaram, naquele país, o livro “Para ler o Pato Donald”, um ensaio marxista que analisava o caráter imperialista estadunidense contido nos quadrinhos da Disney. Disseram os autores que o público, na maioria crianças, era incentivado por essa poderosa mídia a reproduzir a lógica capitalista e colonialista pregada por seus personagens. Entre as críticas constavam as relações interpessoais subjugadas pela ganância e pelo dinheiro, a visão dos outros povos como ignorantes e/ou tribais e a divulgação dos personagens como seres assexuados em um ambiente onde não havia nascimento, casamento, envelhecimento ou morte, mostrando a ausência de passado e futuro, ou seja, um modelo estratificado ideal para a exploração capitalista.
A obra escrita em local e data bem específicos foi banida do Chile, juntamente com seus autores, com o golpe militar de 1973. No Brasil teve seu lançamento em 1977, pela Paz e Terra e se tornou bastante popular até meados da década de 1980 junto ao público universitário, especialmente naqueles que eram chamados “cursos de esquerda”, ou seja, das áreas de Ciências Humanas e Sociais.
Diferentemente da crítica de Dorfman e Matterlat, a cruzada anti Disney atual não possui a análise radical fundamentada em teoria política racional e “terrena”. Sua base é o fundamentalismo de caráter religioso machista e homofóbico simplesmente. No início de março Malafaia propôs o boicote como resposta ao beijo entre dois personagens gays na animação “Star vs. as Forças do Mal”. “A safadeza da Disney em querer erotizar e ensinar homossexualismo a crianças, chegou em seus desenhos”, escreveu o pastor, que exerce poder junto à “bancada evangélica” do Congresso.
No dia 9 foi a vez do deputado Galli (PSC) declarar em uma rádio que, após estudos aprofundados, descobriu que Mickey é gay, que faz apologia ao homossexualismo e que o objetivo da Disney é destruir famílias. As “provas” seriam o eterno namoro sem casamento, as famílias que na sua visão não são famílias porque possuem tios ao invés de pais, as cores, a maneira do personagem agir... Enfim, arrematou: é obra da “agenda da militância marxista mundial”.
Ou seja, aonde os autores marxistas perceberam doutrinação capitalista, o pastor e o deputado evangélicos veem doutrinação “gayzista” e marxista. O tempora! o mores!
A propósito, havia uma criança de sete anos que um dia chegou e disse: “mãe descobri que o Mickey e a Minie são a mesma pessoa. A Minie é só o Mickey de vestido”. Mais ou menos como os estudos aprofundados de Galli.
Em tempo: a criança, hoje um adulto, não se tornou gay... nem evangélico pentecostal.
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