O QUE É ZARCO LIVRE?

Zarco é uma gíria usada pelos moradores de Joinville para ônibus. Portanto, o Zarco Livre está aberto para transportar o leitor a novas ideias, tendo como parâmetro o respeito à democracia, à verdade e à dignidade humana.

Livre trânsito para todas as idéias

quarta-feira, 8 de março de 2017

Reflexões sobre 8 de março

          Por Elza Daufenbach
De todas as datas “comemorativas”, por algumas razões, considero oito de março a mais desconfortável. A princípio, esta declaração pode causar estranheza por ter vindo de uma mulher, sendo esta data, o seu dia.

O Dia Internacional da Mulher – referendado pela ONU em 1975 com o objetivo de inserir a reflexão e a luta para a superação da discriminação e do preconceito sobre as mulheres – por uma apropriação capitalista no intuito de alimentar o mercado consumidor, fez com que, para uma parcela considerável da sociedade, se transformasse apenas em um ritual de dar/receber presentes. Percebe-se, assim, que esta manifestação comemorativa é apropriada pela publicidade para reforçar o estereótipo do padrão feminino estabelecido.

Quando alguém me cumprimenta com um “parabéns pelo seu dia”, meu educado agradecimento protocolar não impede que o espírito da inquietude se manifeste em pensamento: “meu dia, mas será que só tenho um dia no ano? De quem são os outros 364 dias?”. Ser parabenizada por ter nascido mulher! Sim, aqui não há opção, diferentemente do dia das mães (ser ou não) ou dos namorados (ter ou não). Porém, o conflito que se manifesta pela linguagem, pela expressão, nem sempre é perceptível, por isso se costuma naturalizar certos procedimentos, tornados mais tarde como uma ação a ser seguida.

Por que as mulheres não são cumprimentadas pelas adversidades enfrentadas na sua luta diária, pelos seus sonhos” que em geral são mais proibitivos para o sexo feminino!? Mas ocorre que a apropriação pelo capital e a cultura machista que tende a fazer pouco caso da histórica luta das mulheres propiciaram a valorização da data em detrimento do seu objetivo. Então o que era luta virou comemoração, o que era reflexão virou homenagem. Portanto, ao invés de “comemorar” o Dia Internacional da Mulher, por que não recolocá-lo no seu objetivo fundante e “celebrá-lo” rememorando a luta histórica, problematizando as lutas atuais, refletindo sobre seus ganhos e perdas. E nesta perspectiva, tivemos recentemente um retrocesso na luta histórica das mulheres brasileiras por direitos e reconhecimento.

Há menos de um ano estamos convivendo com um golpe de Estado que derrubou a primeira mulher eleita e reeleita para presidir o país. Inicialmente, é preciso reconhecer que este golpe não depôs somente a Presidente da República, mas também dizimou a política progressista do bem estar social iniciada com os governos de esquerda. Congelamento de investimentos, cortes nos programas sociais como Bolsa Família, FIES, Minha Casa Minha Vida, dificultarão ainda mais a vida das mulheres que necessitam destes programas para superar as desigualdades socioeconômicas entre os sexos.

Importante mencionar que a campanha arquitetada para depor a Presidente da República incluiu aspectos odiosamente machistas. Alguém já se esqueceu do simbolismo do estupro estampado nos adesivos colados na boca dos tanques de combustível dos automóveis? Das fofocas maledicentes nas redes sociais sobre a sexualidade da Presidente? Das opiniões desabonadoras sobre seu corpo? Dos coros de xingamentos de baixo calão nas cerimônias públicas?  Como não reconhecer a misoginia destas ações? Como não conectá-las com o doloroso preconceito ordenador do papel e do lugar da mulher? Talvez nem devêssemos ver neste tipo de manifestações um recrudescimento do machismo, mas apenas um momento em que ele foi chocantemente verbalizado.

Racionalmente, todas as mulheres deveriam se sentir agredidas com estas manifestações agressivas contra uma mulher, por seu conteúdo discriminatório. No entanto, estranhamente, uma significativa parte das mulheres proferiam estas mesmas agressões contra Dilma Rousseff, usando as mesmas palavras e o mesmo escárnio. Produto da alienação? Da ignorância? Do rastilho de ódio da maquinação pré-golpe? Resultado da cultura machista introjetada? Mas isso não muda e nem ameniza a concretude de que, sim, muitas mulheres sentiram-se confortáveis ofendendo a Presidente pelo fato de ela ser mulher, uma mulher que não era bela, nem recatada e nem do lar. Uma mulher fora do padrão do corpo feminino imposto culturalmente e fora do estereotipo do lugar social reservado às mulheres.

A deposição de Dilma Rousseff significou também a expulsão das mulheres do primeiro escalão do governo. Lamentavelmente, no governo atual, a ausência de mulheres ocupando cargos significou um retrocesso na luta pelo seu empoderamento.

            Assim, neste “Dia da Mulher” há pouco a comemorar e muito o que fazer. Temos que resistir, especialmente neste momento pós-golpe em que direitos conquistados estão sendo retirados. Mas também é preciso reconhecer que “mulher” é uma abstração generalizante, que só existe no plural. Então celebremos a resistência de cada uma das mulheres que lutam para um mundo menos desigual para todas.


Nenhum comentário:

Postar um comentário