Por Elza Daufenbach
De todas as datas “comemorativas”, por algumas razões,
considero oito de março a mais desconfortável. A princípio, esta declaração
pode causar estranheza por ter vindo de uma mulher, sendo esta data, o seu dia.
O Dia Internacional da Mulher – referendado pela ONU em
1975 com o objetivo de inserir a reflexão e a luta para a superação da
discriminação e do preconceito sobre as mulheres – por uma apropriação
capitalista no intuito de alimentar o mercado consumidor, fez com que, para uma
parcela considerável da sociedade, se transformasse apenas em um ritual de
dar/receber presentes. Percebe-se, assim, que esta manifestação comemorativa é
apropriada pela publicidade para reforçar o estereótipo do padrão feminino
estabelecido.
Quando alguém me cumprimenta com um “parabéns pelo seu
dia”, meu educado agradecimento protocolar não impede que o espírito da
inquietude se manifeste em pensamento: “meu dia, mas será que só tenho um dia
no ano? De quem são os outros 364 dias?”. Ser parabenizada por ter nascido
mulher! Sim, aqui não há opção, diferentemente do dia das mães (ser ou não) ou
dos namorados (ter ou não). Porém, o conflito que se manifesta pela linguagem,
pela expressão, nem sempre é perceptível, por isso se costuma naturalizar
certos procedimentos, tornados mais tarde como uma ação a ser seguida.
Por que as mulheres não são cumprimentadas pelas
adversidades enfrentadas na sua luta diária, pelos seus sonhos” que em geral
são mais proibitivos para o sexo feminino!? Mas ocorre que a apropriação pelo
capital e a cultura machista que tende a fazer pouco caso da histórica luta das
mulheres propiciaram a valorização da data em detrimento do seu objetivo. Então
o que era luta virou comemoração, o que era reflexão virou homenagem. Portanto,
ao invés de “comemorar” o Dia Internacional da Mulher, por que não recolocá-lo
no seu objetivo fundante e “celebrá-lo” rememorando a luta histórica,
problematizando as lutas atuais, refletindo sobre seus ganhos e perdas. E nesta
perspectiva, tivemos recentemente um retrocesso na luta histórica das mulheres
brasileiras por direitos e reconhecimento.
Há menos de um ano estamos convivendo com um golpe de
Estado que derrubou a primeira mulher eleita e reeleita para presidir o país.
Inicialmente, é preciso reconhecer que este golpe não depôs somente a
Presidente da República, mas também dizimou a política progressista do bem
estar social iniciada com os governos de esquerda. Congelamento de
investimentos, cortes nos programas sociais como Bolsa Família, FIES, Minha
Casa Minha Vida, dificultarão ainda mais a vida das mulheres que necessitam
destes programas para superar as desigualdades socioeconômicas entre os sexos.
Importante mencionar que a campanha arquitetada para depor
a Presidente da República incluiu aspectos odiosamente machistas. Alguém já se
esqueceu do simbolismo do estupro estampado nos adesivos colados na boca dos
tanques de combustível dos automóveis? Das fofocas maledicentes nas redes
sociais sobre a sexualidade da Presidente? Das opiniões desabonadoras sobre seu
corpo? Dos coros de xingamentos de baixo calão nas cerimônias públicas? Como não reconhecer a misoginia destas ações?
Como não conectá-las com o doloroso preconceito ordenador do papel e do lugar
da mulher? Talvez nem devêssemos ver neste tipo de manifestações um recrudescimento
do machismo, mas apenas um momento em que ele foi chocantemente verbalizado.
Racionalmente, todas as mulheres deveriam se sentir
agredidas com estas manifestações agressivas contra uma mulher, por seu
conteúdo discriminatório. No entanto, estranhamente, uma significativa parte
das mulheres proferiam estas mesmas agressões contra Dilma Rousseff, usando as
mesmas palavras e o mesmo escárnio. Produto da alienação? Da ignorância? Do
rastilho de ódio da maquinação pré-golpe? Resultado da cultura machista
introjetada? Mas isso não muda e nem ameniza a concretude de que, sim, muitas
mulheres sentiram-se confortáveis ofendendo a Presidente pelo fato de ela ser
mulher, uma mulher que não era bela, nem recatada e nem do lar. Uma mulher fora
do padrão do corpo feminino imposto culturalmente e fora do estereotipo do
lugar social reservado às mulheres.
A deposição de Dilma Rousseff significou também a expulsão
das mulheres do primeiro escalão do governo. Lamentavelmente, no governo atual,
a ausência de mulheres ocupando cargos significou um retrocesso na luta pelo
seu empoderamento.
Assim,
neste “Dia da Mulher” há pouco a comemorar e muito o que fazer. Temos que
resistir, especialmente neste momento pós-golpe em que direitos conquistados
estão sendo retirados. Mas também é preciso reconhecer que “mulher” é uma
abstração generalizante, que só existe no plural. Então celebremos a
resistência de cada uma das mulheres que lutam para um mundo menos desigual
para todas.
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