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terça-feira, 28 de março de 2017

O Humanismo silenciado

Valdete Daufenback

Ninguém interpretou o tempo presente de forma tão precisa como o historiador e cientista político Achille Mbembe, ao afirmar que a era do humanismo está acabando. Há, sim, em toda parte, sinais de que no lugar do humanismo, o recrudescimento e a exploração se instalaram de forma brutal. Contraditoriamente, segmentos sociais que foram beneficiados pela política que marcou a consolidação do humanismo, naturalizam o seu desmonte e apoiam o surgimento deste estado de incertezas e o fim dos direitos constitucionais.

Essa manifestação pode ser uma tendência pós crise do capital globalizado.  A marca neoliberal avança sobre todas as esferas públicas e aponta em direção à iniciativa privada como o único instrumento de poder para desenhar a resolução das necessidades do tempo presente.

O educador Paulo Freire foi um dos protagonistas do humanismo ao elaborar teorias e práticas pedagógicas que incentivam a autonomia dos sujeitos por meio de relações educativas horizontalizadas, criando a liberdade do saber-fazer com ética e responsabilidade.   Uma educação humana com o despertar da autonomia para a vida e para o mundo do trabalho, respeitando os limites e as potencialidades, sem exclusão. Esse grande educador que transpôs fronteiras do conhecimento margeou um contexto social de domínio político autoritário e sua pedagogia não foi compreendida pelo sistema educacional brasileiro.

Interessa muito mais ao Brasil um modelo educacional colonizador que não condiz com as necessidades de aprendizagem de um público tão diversificado socialmente. Assim, a escola, sem uma compreensão pedagógica que lhe defina uma identidade, é atropelada por uma série de interferências em formas de projetos advindos de empresas, sob alegação de tornar a sala de aula mais atrativa e melhorar a qualidade do ensino.

Os mecanismos da precarização do trabalho que se espalharam legitimamente em vários setores, defendem a terceirização na área da educação sob pretexto de agilizar o processo de ensino, já desgastado. Neste universo, o Projeto Conexão Jovem, do “Movimento Santa Catarina pela Educação”, que investe de poder jovens denominados “embaixadores” escolhidos pela Federação das Indústrias de Santa Catarina para interagiram nas escolas, é um exemplo de atuação às avessas da finalidade do ensino.

A escola deve ter autonomia para ensinar. A Escola deve ter qualificação para desenvolver conhecimentos a serem aplicados ao bem coletivo, para a profissionalização do trabalho. Ao invés disso, as empresas é quem dão as diretrizes e os comandos para a aplicação de uma conduta que acha ser essencial porque, segundo apontamento de um diagnóstico, há uma defasagem de conhecimentos em relação à aprendizagem de matérias básicas.

Ingenuidade pensar que a desvalorização do profissional da área da educação se fez por mero acaso ou descuido do poder público que deixou de investir nas instituições de ensino. O controle da mão de obra sempre pertenceu aos donos do meio de produção. E o Estado tende a colaborar com as decisões das necessidade do capital a partir dos representantes que elaboram as normativas legais.


 O incentivo econômico das empresas na promoção de projetos que norteiam os conteúdos e formas nas escolas por meio da competição de conhecimento e da disciplina, apresentando a possibilidade de inovação tecnológica para garantir a qualidade de ensino que os setores produtivos precisam para alimentar o capital (como se a escola fosse uma instituição congelada, estática e sem vida própria), é uma demonstração de como o humanismo passa a ser substituído pelo jogo de “escadas e serpentes”.  

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