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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Anita Garibaldi e outras heroínas brasileiras

Por Domingos Miranda

No dia 4 de agosto de 1849 morria, na Itália, a catarinense Anita Garibaldi, a maior guerreira de nossa história. Ela, ao lado de seu marido Giuseppe Garibaldi, participou de lutas libertárias no Brasil, Uruguai e Itália, sendo reconhecida como “a heroína de dois mundos”. No entanto, por mais de um século seu nome ficou na penumbra por causa de preconceitos, principalmente por causa da igreja católica, que não aceitava o seu relacionamento com o companheiro, mesmo depois do
desaparecimento de seu primeiro marido. Por isso Anita, cujos restos mortais estão em terras italianas, é mais reverenciada no exterior do que em sua terra natal. 

Anita Garibaldi participou de lutas heróicas e mostrou uma coragem fenomenal, mas para um país machista, isso não era suficiente para derrubar as barreiras do preconceito. Foi preciso contar com o nome de seu marido, considerado o maior herói da unificação italiana e da Revolução Farroupilha, para que nossa heroína passasse e figurar nos compêndios escolares.

Giuseppe Garibaldi carrega o corpo de Anita enquanto era perseguido pelos inimigos.


Outras representantes do sexo feminino tiveram destaque no avanço das lutas sociais e continuam no ostracismo. Basta citar alguns nomes: Maria Ortiz, que liderou a expulsão dos invasores holandeses em Vitória (ES); Luísa Mahin, que participou de todas as revoltas de escravos em Salvador, no início do século 19; Leolinda Daltro, defensora dos direitos das mulheres e dos índios há mais de cem anos; Maria Lacerda de Moura, uma fervorosa militante do movimento operário na primeira metade do século\20.

Bem perto de nós está um exemplo concreto da invisibilidade de alguns personagens de nossa história por causa do preconceito. A primeira mulher imigrante a pisar nas terras onde seria Joinville foi a professora, jornalista e escritora alemã Julia Engell-Günther. No início de 1850 viajou para Santa Catarina vestida como homem, acompanhando o agrimensor Hermann Günther, encarregado pela companhia alemã de Hamburgo de montar a infraestrutura capaz de receber os imigrantes que começariam a chegar no ano seguinte. Com a demissão de seu marido, Julia mudou-se para Limeira,
interior de São Paulo, onde montou uma escola. Mesmo tendo ficado pouco mais de um ano em Joinville, a jornalista escreveu artigos para jornais alemães incentivando a imigração e foi a autora dos desenhos das primeiras casas construídas no meio da selva.


Julia Engell-Günther, uma feminista no século 19.

Em 1859, Julia, seu marido e o filho voltaram para a Alemanha, onde ela escreveu livros e contos abordando a realidade brasileira. Também foi uma ativa colaboradora dos jornais socialistas, sempre ressaltando a importância da participação da mulher nos destinos da sociedade. Com todo este cabedal de conhecimento, Julia Engell permaneceu uma desconhecida para os historiadores porque, em 1853, o capitão Theodor Rodowicz-Oswiecimsky escreveu um livro sobre os primórdios de Joinville e citou que ela era “amásia” de Hermann Günther. Isto foi suficiente para que a sociedade
conservadora e puritana apagasse o nome desta escritora da história. Há cerca de 40 anos a historiadora Elly Herkenhoff a retirou do esquecimento.

São casos como este que mostram que a sociedade ainda apresenta um certo ranço machista, não dando o devido valor a mulheres de valor que lutaram por nobres ideais. Que não só o nome de Anita Garibaldi seja homenageada no panteão das heroínas, mas todas as mulheres que contribuíram para uma sociedade mais justa e igualitária.

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