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segunda-feira, 13 de março de 2017

A nossa tara pela violência

Domingos Miranda

A sociedade brasileira tem uma tara visceral pela violência. O exemplo mais cabal disso está nas pesquisas eleitorais. Jair Bolsonaro, candidato a presidente, é o que mais cresce e já deixou de ser uma candidatura folclórica. Nos seus discursos raivosos ele apregoa a pena de morte, a permissão de armamento aos moradores, redução da lei da maioridade etc. Tem o linguajar fácil que atrai multidões mas que não resolve os problemas. Nós já tivemos experiências com salvadores da pátria, como Collor de Mello e Jânio Quadros, e nenhum deles trouxe solução para a sua principal bandeira, em ambos, o combate à corrupção.

As campanhas eleitorais se transformaram em shows de marketing. O candidato escolhe um dos problemas que mais afligem a população e apresenta soluções miraculosas, mesmo estando fora da realidade. Bolsonaro escolheu o tema do combate à violência e em cima dele tem feito a sua campanha e a de seus filhos, sempre com sucesso. Como a população está cansada de ser espoliada pelos criminosos, desde o ladrão pé rapado até o bandido de foro privilegiado, acaba caindo no canto da sereia.

A existência do brasileiro cordial, como pregaram alguns intelectuais, não resiste a uma simples análise. Desde a chegada dos portugueses à Terra dos Papagaios, a violência tem sido uma companheira constante de nossa gente. Boa parte dos indígenas foi dizimada e suas terras usurpadas pelos latifundiários. Ainda na segunda metade do século passado os jornais estamparam a foto de uma indígena pendurada pelos pés no galho de uma árvore. Depois ficamos sabendo que ela foi dividida ao meio pelo golpe de facão no meio das pernas. Os negros foram domesticados a golpe de chibata. As sinhazinhas não ficavam atrás no quesito crueldade. Costumavam colocar as negras mais bonitas dentro dos fornos à lenha onde morriam. Eram punidas duplamente: primeiro estupradas pelo senhor e em seguida assassinadas pela sinhazinha.

O nosso Exército e Marinha agiam com enorme ferocidade quando combatiam o inimigo interno. Em Canudos e no Contestado, milhares de adultos e crianças, já prisioneiros, iam para a degola sem qualquer remorso. Em Florianópolis, durante a Revolução Federalista, 180 lideranças políticas foram fuziladas sumariamente por ordem do coronel Moreira César. Mais recentemente, a decapitação voltou a ser praticada contra os guerrilheiros do Araguaia. Até hoje os militares não devolveram os corpos, ferindo um princípio básico dos tratados de guerra.

Este apoio à violência se dá de forma insidiosa através dos meios de comunicação. Os apresentadores dos principais programas policiais de rádio e televisão tem como principal bordão a pena de morte. Alguns chegam ao extremo de concordar com o linchamento de criminosos e seu esquartejamento. Pouquíssimos são aqueles que apontam em outra direção, mostrando que o combate à violência passa por uma polícia mais bem aparelhada e não vingativa, pela oferta de emprego aos jovens, pela criação de áreas de lazer e cultura nos bairros mais violentos etc. Assim foi feito em Medellin, na Colômbia, a cidade mais violenta do mundo na década de 90 e com ótimos resultados.


Diz um antigo ditado popular que cometer um erro é humano; repetir o erro é burrice. Não vamos acreditar em charlatães que oferecem remédios milagrosos para solucionar nossas doenças sociais. O que precisamos são políticas que acabem com a impunidade dos criminosos, principalmente os de alto escalão. Bolsonaro, por exemplo, está há mais de 20 anos no parlamento e não apresentou nenhum projeto sério para acabar com a violência. Ouvimos dele apenas discursos vazios que agradam o ouvido dos mais desavisados. Padre Antônio Vieira escrevia há mais de 300 anos: “Palavras sem obras são tiros sem bala; atroam, mas não ferem”. Vamos lutar por uma sociedade mais humana e igualitária, pois este será o primeiro passo para combater a violência, que deve ser banida desta terra.

2 comentários:

  1. Excelente! Um texto capaz de instigar a reflexão sobre as razões da violência entranhada na sociedade brasileira. Parabéns Domingos Miranda!

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  2. Roberto S.U.Rosso Jr.
    Excelente análise da questão da violência na nossa sociedade.

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