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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Papa Francisco e a Igreja em movimento

Por Elza Daufenbach

Quem se interessa pelo tema Igreja Católica percebeu de maneira inequívoca uma mudança no discurso do clero brasileiro neste último mês. O discurso conservador, ritualístico e autocentrado foi substituído por outro, politicamente engajado, como não se ouvia há décadas senão dos velhos remanescentes da Teologia da Libertação.

O mote foi a nota elaborada pelo Conselho Permanente da CNBB em 23 de março, que definiu a posição da entidade sobre a proposta de reforma da previdência e outras medidas consideradas pela entidade como causadoras de exclusão social perpetradas pelo governo Temer. Mas o que diferenciou esta das muitas manifestações da CNBB, não foram apenas o teor e o tom duro da crítica, mas a determinação de que os membros do clero assumissem este discurso e o predicassem em suas comunidades, inclusive nas missas e demais ritos.

Obedecida pela maioria dos clérigos, alguns fiéis foram pegos de surpresa quando, preparados para escutar mais uma típica homilia de seu pároco, este inicia criticando as injustiças praticadas por políticos corruptos contra os mais pobres e frágeis. E estas manifestações pelo Brasil afora vem se constituindo na maneira mais visível da Igreja Católica marcar sua posição contra a política de neoliberal do governo brasileiro.

Ironicamente, esta postura progressista da CNBB vem na contramão das tendências neoliberalizantes da sociedade e, ao mesmo tempo, representa um retorno (ainda que tímido) para Igreja Católica pós Vaticano II, da “opção preferencial pelos pobres”. E aqui cabe ressaltar dois aspectos: o primeiro, é que este posicionamento seria impensável sob a égide dos papas João Paulo II e Bento XVI. O segundo, é que seria quase impossível o clero brasileiro manter-se alheado das questões sociopolíticas no papado de Francisco, muito embora o tenha tentado.

Francisco é um papa singular, determinado a estabelecer a maior aproximação possível entre religião (a palavra salvacionista) e igreja (a burocracia que administra a religião). Portanto, suas atitudes desconcertantes, que eu resumo na frese ‘tentar viver como uma pessoa pobre comum’, e seus discursos transgressores do status quo representam essa aproximação entre palavra e prática. O problema é que, em parte por ser visível e em parte por ser humana, a burocracia eclesial estabeleceu uma fixidez ritualística com maior poder que a palavra em si. Por isso dificilmente alguém, mesmo católico, afirma algo como “a atitude/discurso do papa está de acordo com o Evangelho”; na maioria das vezes o comentário é sobre como ele é diferente dos demais homens da Igreja.

Portanto, é possível que a demora na adesão do episcopado brasileiro em assumir uma posição alinhada com seu dirigente seja derivada, em boa parte, da necessidade de se familiarizar com um discurso tão incomum no métier papal como as declarações: “o capitalismo é causador de pobreza; um sistema excludente que desloca idosos e jovens". E, “os pobres estão no Centro do Evangelho. A bandeira dos pobres é cristã. Os comunistas roubaram a nossa bandeira”. Esperar para ver.

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