Por Domingos Miranda
Para que serve a mentira? Para demonstrar um mundo falso, distante da realidade. Por incrível que pareça, em tempos onde a comunicação levou a informação para todos os rincões do país, o que mais frutificou neste meio foi a meia verdade ou mesmo a pura enganação. E em momentos de crise aguda a verdade é o produto mais raro, difícil de ser encontrada. Peguemos apenas um exemplo, o de corte de gastos públicos. Fala-se muito em apertar os cintos (dos mais pobres) para colocar em ordem a estabilidade fiscal, mas não se toca nos privilégios dos mais abastados. E o presidente Temer solta esta pérola para defender a mudança na Previdência: “Estamos fazendo uma reforma que trará mais igualdade para todos. A previdência será mais justa com os mais pobres e mais rígida com os mais ricos”.
É hilário ouvir isto de um dirigente golpista que só tem se preocupado em cortar benefícios que atingem os setores mais populares. Por outro lado, logo que assumiu a presidência, concedeu reajuste de 56% para o judiciário, este que tem os maiores salários entre os três poderes. Além de ganhar bem, três de cada quatro juízes recebem salários acima do teto constitucional, que é de R$ 34 mil. Se é para fazer economia, porque a alta cúpula governamental não dá exemplo e corta na própria carne? É um acinte ver o presidente da República oferecendo jantares para deputados e senadores para conquistá-los para seus objetivos maldosos para com o povo.
Mas esta prática está disseminada para todos os quadrantes. Veja o que acontece em Santa Catarina com o serviço de bombeiros, altamente necessário. Os bombeiros voluntários atendem 30% da população do Estado e custam R$ 4 milhões por ano. Já os bombeiros militares cobram 37% dos moradores e abocanham R$ 224 milhões. O governador Raimundo Colombo alega que precisa cortar gastos, mas não tenta mudar este paradigma entre os bombeiros. O correto seria incentivar para que todas as unidades dos corpos de bombeiros fossem de voluntários, como o de Joinville, fundado em 1892 e é um exemplo de eficiência para todo o país. Mas, não é o que acontece. A associação de oficiais da Polícia Militar está com uma ação no Supremo Tribunal Federal que, se aprovada, irá inviabilizar a atuação dos bombeiros voluntários.
Trazendo o exemplo para o município, Joinville está atrasando o pagamento de vários fornecedores, o que resulta em transtornos para a população. Mas Udo Döhler não abre mão dos R$ 15 milhões destinados à comunicação. Com um quinto deste valor daria para fazer a divulgação de suas leis, avisos e obras. Mas a irrigação com verba pública na mídia é a maneira mais fácil de evitar o surgimento de matérias jornalísticas que contrariem os interesses do paço municipal.
Assim caminha a humanidade, ou melhor, o Brasil, onde o importante é a versão oficial e não o fato. E a sociedade ainda não está esclarecida a tal ponto que se rebele contra este estado de coisas. O jurista Fábio Konder Comparato deu uma boa explicação para esta situação: “Tivemos quase quatro séculos de escravidão, o que criou na mentalidade popular aquela ideia fundamental de que quem pode manda, obedece quem tem juízo”. E o primeiro passo para acabar com o império da mentira é democratizar a mídia, o resto vem depois.

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