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segunda-feira, 24 de abril de 2017

O Fetiche da mercadoria humana

Por Jeison Giovani Heiler

Deparando-me com uma manchete jornalística que anunciava os homens e mulheres solteiros disponíveis no mercado imediatamente perguntei-me: qual mercado? De que tipo de mercado estamos falando, ainda que, de forma absolutamente metafórica? Se podemos admitir mesmo que homens e mulheres possam figurar também nas vitrines mercadológicas como itens disponíveis para compra, venda, locação, cessão, uso e abuso, como coisas consideradas objetivamente, também podemos refletir um pouco até onde isso pode nos levar.

Para delimitar este mercado, como se faz na economia, talvez o primeiro passo devesse ser classificar de que tipo de mercado estamos falando. Certamente haverá um acordo, já que ultrapassamos a fase da escravidão, de que nesse mercado, não está disponível a coisa em si, o corpo humano, pelo menos não nesse caso, disso trata o mercado da prostituição em franca ascendência e um dos mais promissores na bolsa de valores.

O mercado de que fala-se aqui poderia ser classificado como o mercado do afeto. Há afetos em jogo. É o afeto que se torna agora item de mercado. Por isso diz a manchete/anúncio “homens e mulheres [solteiros]” Ou seja, com afeto disponível para a compra, venda, locação, uso, desuso e obsolescência. Entendo amparado no pensamento antropológico de Levi-Strauss que essa alusão ao mercado ultrapasse em muito a mera ilustração linguística na forma de uma simples figura de linguagem. O que nos leva a pensar no afeto como “coisa” passível de transação mercadológica?

O estruturalismo antropológico desenvolvido por Lévi-Strauss considera, na análise dos diferentes modelos de sociedades, elementos conscientes e inconscientes. Estes últimos, de dificílima assimilação, seriam responsáveis por toda representação social desprovida de fundamentos conhecidos ou conscientes. Desta forma, os discursos patentes em manchetes como a que analisamos aqui, poderiam revelar elementos inconscientes, mas que dão forma ao modelo de sociedade em que estamos mergulhados de ponta-cabeça e com os braços amarrados.

Uma sociedade, pautada um um determinado modelo econômico e político que considera tudo, absolutamente tudo, inclusive os afetos, passível de compra, venda, locação, uso e desuso por meio da troca por fichas simbólicas a que convencionamos chamar: dinheiro. O fetiche da mercadoria fetichizou o mercado como coisa desejável em si.

Como consequência lógica, vemos multiplicarem-se os discursos que resumem todos os itens da existência como disponíveis nos mercados, eleitoral, da moda, do futebol, do trabalho, do crime, do tráfico, do futebol, da arte, da literatura dos afetos etc. Tudo isso disponível para compra, venda, locação, uso, desuso, obsolescência e principalmente: descarte!

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