O QUE É ZARCO LIVRE?

Zarco é uma gíria usada pelos moradores de Joinville para ônibus. Portanto, o Zarco Livre está aberto para transportar o leitor a novas ideias, tendo como parâmetro o respeito à democracia, à verdade e à dignidade humana.

Livre trânsito para todas as idéias

terça-feira, 28 de março de 2017

O Humanismo silenciado

Valdete Daufenback

Ninguém interpretou o tempo presente de forma tão precisa como o historiador e cientista político Achille Mbembe, ao afirmar que a era do humanismo está acabando. Há, sim, em toda parte, sinais de que no lugar do humanismo, o recrudescimento e a exploração se instalaram de forma brutal. Contraditoriamente, segmentos sociais que foram beneficiados pela política que marcou a consolidação do humanismo, naturalizam o seu desmonte e apoiam o surgimento deste estado de incertezas e o fim dos direitos constitucionais.

Essa manifestação pode ser uma tendência pós crise do capital globalizado.  A marca neoliberal avança sobre todas as esferas públicas e aponta em direção à iniciativa privada como o único instrumento de poder para desenhar a resolução das necessidades do tempo presente.

O educador Paulo Freire foi um dos protagonistas do humanismo ao elaborar teorias e práticas pedagógicas que incentivam a autonomia dos sujeitos por meio de relações educativas horizontalizadas, criando a liberdade do saber-fazer com ética e responsabilidade.   Uma educação humana com o despertar da autonomia para a vida e para o mundo do trabalho, respeitando os limites e as potencialidades, sem exclusão. Esse grande educador que transpôs fronteiras do conhecimento margeou um contexto social de domínio político autoritário e sua pedagogia não foi compreendida pelo sistema educacional brasileiro.

Interessa muito mais ao Brasil um modelo educacional colonizador que não condiz com as necessidades de aprendizagem de um público tão diversificado socialmente. Assim, a escola, sem uma compreensão pedagógica que lhe defina uma identidade, é atropelada por uma série de interferências em formas de projetos advindos de empresas, sob alegação de tornar a sala de aula mais atrativa e melhorar a qualidade do ensino.

Os mecanismos da precarização do trabalho que se espalharam legitimamente em vários setores, defendem a terceirização na área da educação sob pretexto de agilizar o processo de ensino, já desgastado. Neste universo, o Projeto Conexão Jovem, do “Movimento Santa Catarina pela Educação”, que investe de poder jovens denominados “embaixadores” escolhidos pela Federação das Indústrias de Santa Catarina para interagiram nas escolas, é um exemplo de atuação às avessas da finalidade do ensino.

A escola deve ter autonomia para ensinar. A Escola deve ter qualificação para desenvolver conhecimentos a serem aplicados ao bem coletivo, para a profissionalização do trabalho. Ao invés disso, as empresas é quem dão as diretrizes e os comandos para a aplicação de uma conduta que acha ser essencial porque, segundo apontamento de um diagnóstico, há uma defasagem de conhecimentos em relação à aprendizagem de matérias básicas.

Ingenuidade pensar que a desvalorização do profissional da área da educação se fez por mero acaso ou descuido do poder público que deixou de investir nas instituições de ensino. O controle da mão de obra sempre pertenceu aos donos do meio de produção. E o Estado tende a colaborar com as decisões das necessidade do capital a partir dos representantes que elaboram as normativas legais.


 O incentivo econômico das empresas na promoção de projetos que norteiam os conteúdos e formas nas escolas por meio da competição de conhecimento e da disciplina, apresentando a possibilidade de inovação tecnológica para garantir a qualidade de ensino que os setores produtivos precisam para alimentar o capital (como se a escola fosse uma instituição congelada, estática e sem vida própria), é uma demonstração de como o humanismo passa a ser substituído pelo jogo de “escadas e serpentes”.  

Animais merecem clemência

Domingos Miranda

No artigo anterior comentei sobre a violência que permeia a sociedade brasileira. Agora quero falar das torturas praticadas contra animais, encaradas com naturalidade por muita gente. Um destes exemplos é a farra do boi, uma tradição trazida pelos imigrantes açorianos e ainda bastante praticada no litoral de Santa Catarina. Durante a semana santa soltam-se bovinos famintos pelas ruas enquanto os moradores agridem os animais com todo tipo de objeto até matá-los. Mesmo sendo uma atividade ilegal, os praticantes se esquivam da polícia e põem para fora seus instintos assassinos.

Leonardo da Vinci, há mais de 400 anos, já dizia: “Chegará o dia em que todo homem conhecerá o íntimo de um animal. E neste dia, todo o crime contra o animal será um crime contra a humanidade”. E, pelo visto, ainda vai demorar muito tempo para que isto aconteça. A farra do boi é irmã de uma outra apologia da tortura, a tourada. É incrível verificar que pessoas sintam prazer com o sofrimento de animais. Não sei dizer se são resquícios genéticos trazidos do período pré-histórico.

Quando alguma aberração acontece com muita frequência a sociedade acaba encarando-a com certa naturalidade. Quando criança, ficava chocado quando ajudava meu pai na matança de porcos. Aquele som do suíno no estertor da morte ainda está presente na minha memória mesmo passado mais de meio século. Quando adulto, acompanhei, como jornalista, o abate de um boi em um abatedouro. O magarefe levantou uma marreta e bateu na cabeça do boi que caiu atordoado. Com ele ainda vivo, cortou a sua jugular, espalhando sangue para todo lado. Saí de lá com vontade de vomitar. Não aceito que religião sacrifique animais. Está em contradição com o que pregam todas as crenças, um Deus todo misericordioso.

Na pecuária moderna também acontecem absurdos. Os criadores separam as crias de suas mães, quando não as matam. Mesmo os animais domésticos não estão livres. Os shoppings costumam colocar os filhotes em gaiolas, longe das mães, para que possam ser observados por futuros compradores. Eu já vi crueldades mais aberrantes. Uma delas foi um cão labrador com as costas em pele viva, pois haviam despejado óleo fervente para torturá-lo. Outro caso aconteceu há cerca de cinco anos. Perto de onde eu morava tinha um depósito da prefeitura e, sempre que ia a pé ao supermercado, dois cães que ficavam naquela região me acompanhavam. Certo dia um funcionário da prefeitura resolveu enterrar vivo os dois cachorros, o que acabou gerando uma sindicância.

Os animais estão aí para serem admirados e, alguns deles, nos prestam inestimáveis serviços. Como seres racionais, deveríamos respeitá-los. O antropocentrismo fracassou. Ou mudamos a nossa maneira de tratar as outras espécies ou o futuro da humanidade estará ameaçado. Não precisa ser vidente para entender esta questão.

sexta-feira, 24 de março de 2017

A crise política no Brasil. O passado e o futuro da crise: elementos políticos, econômicos, jurídicos e sociais

Por Jeison Heiler

Versão preliminar do texto que será publicado pela Universidade Del Desarollo no Chile, agradeço as contribuições, sugestões, críticas que me puderem enviar antes da publicação definitiva.


Resumo: As narrativas que buscam a compreensão do processo que levou à crise política no Brasil são objeto das mesmas disputas que se travam para a manutenção ou substituição do grupo político
que governa o Brasil desde 2002.

 Fato é que há distintas variáveis em jogo e é difícil apontar qual delas é a mais relevante. Neste trabalho sustentamos a hipótese de que a crise brasileira tem em causa, concomitantemente os seguintes fenômenos:

  a) polarização da política partidária;

  b) esgotamento do modelo de financiamento eleitoral.

Ambas catalisadas pelas investigações da Operação Lava Jato deflagradas pela polícia federal e que tem posto a descoberto a sistemática de financiamento eleitoral irregular adotado de forma geral pelos partidos políticos mais competitivos. O objetivo, portanto é o de apresentar uma narrativa dos antecedentes da crise política desdobrando alguns dos possíveis cenários pós-impeachment, a partir dos principais projetos de lei em tramitação no congresso nacional no que tange à direitos relacionados ao sistema de proteção social. Para cumprir este objetivo aborda-se na primeira parte em linhas sumarias o sistema de financiamento eleitoral no Brasil, para em seguida tratar da formação de uma polarização política entre PT e PSDB no Brasil que gradativamente se acirra e contamina grandes parcelas do eleitorado.

Na segunda parte ensaiamos os cenários pós impeachment amparados: a) no crescente ascenso da direita no parlamento depois do resultado das eleições legislativas de 2014;e, b) nos limites do lulismo como política de governo no Brasil. Por fim, concluiu-se que o futuro do Brasil depender em muito destes dois elementos. Com ampla possibilidades de que as ondas de austeridade fiscal finalmente colham a costa brasileira depois de alguns anos de moderada resistência sob a égide do lulismo.



Link para o artigo em PDF: Texto em PDF

sábado, 18 de março de 2017

Boicote à homofobia


Por Elza Daufenbach 


No quadro caótico da política nacional pós-golpe, em que escândalos quase diários envolvendo políticos, empresários, juristas, burocratas e outros cidadãos vêm demolindo a economia e a credibilidade do país e agredindo o sonho de milhões de pessoas que lutam por um país mais justo e ético, o boicote aos produtos Disney proposto pelo pastor Silas Malafaia e pelo deputado federal (e pastor) Victório Galli soa apenas bizarro quando descontextualizado do conjunto de ações de ataques às lutas sociais perpetradas por lideranças homofóbicas. 

Não que a discussão sobre os personagens de Walt Disney seja algo novo. Em 1971, um ano após Salvador Allende assumir a presidência do Chile, Ariel Dorfman e Armand Mattelart publicaram, naquele país, o livro “Para ler o Pato Donald”, um ensaio marxista que analisava o caráter imperialista estadunidense contido nos quadrinhos da Disney. Disseram os autores que o público, na maioria crianças, era incentivado por essa poderosa mídia a reproduzir a lógica capitalista e colonialista pregada por seus personagens. Entre as críticas constavam as relações interpessoais subjugadas pela ganância e pelo dinheiro, a visão dos outros povos como ignorantes e/ou tribais e a divulgação dos personagens como seres assexuados em um ambiente onde não havia nascimento, casamento, envelhecimento ou morte, mostrando a ausência de passado e futuro, ou seja, um modelo estratificado ideal para a exploração capitalista.

A obra escrita em local e data bem específicos foi banida do Chile, juntamente com seus autores, com o golpe militar de 1973. No Brasil teve seu lançamento em 1977, pela Paz e Terra e se tornou bastante popular até meados da década de 1980 junto ao público universitário, especialmente naqueles que eram chamados “cursos de esquerda”, ou seja, das áreas de Ciências Humanas e Sociais. 

Diferentemente da crítica de Dorfman e Matterlat, a cruzada anti Disney atual não possui a análise radical fundamentada em teoria política racional e “terrena”. Sua base é o fundamentalismo de caráter religioso machista e homofóbico simplesmente. No início de março Malafaia propôs o boicote como resposta ao beijo entre dois personagens gays na animação “Star vs. as Forças do Mal”. “A safadeza da Disney em querer erotizar e ensinar homossexualismo a crianças, chegou em seus desenhos”, escreveu o pastor, que exerce poder junto à “bancada evangélica” do Congresso. 

No dia 9 foi a vez do deputado Galli (PSC) declarar em uma rádio que, após estudos aprofundados, descobriu que Mickey é gay, que faz apologia ao homossexualismo e que o objetivo da Disney é destruir famílias. As “provas” seriam o eterno namoro sem casamento, as famílias que na sua visão não são famílias porque possuem tios ao invés de pais, as cores, a maneira do personagem agir... Enfim, arrematou: é obra da “agenda da militância marxista mundial”. 

Ou seja, aonde os autores marxistas perceberam doutrinação capitalista, o pastor e o deputado evangélicos veem doutrinação “gayzista” e marxista. O tempora! o mores!

A propósito, havia uma criança de sete anos que um dia chegou e disse: “mãe descobri que o Mickey e a Minie são a mesma pessoa. A Minie é só o Mickey de vestido”. Mais ou menos como os estudos aprofundados de Galli. 

Em tempo: a criança, hoje um adulto, não se tornou gay... nem evangélico pentecostal.

segunda-feira, 13 de março de 2017

A nossa tara pela violência

Domingos Miranda

A sociedade brasileira tem uma tara visceral pela violência. O exemplo mais cabal disso está nas pesquisas eleitorais. Jair Bolsonaro, candidato a presidente, é o que mais cresce e já deixou de ser uma candidatura folclórica. Nos seus discursos raivosos ele apregoa a pena de morte, a permissão de armamento aos moradores, redução da lei da maioridade etc. Tem o linguajar fácil que atrai multidões mas que não resolve os problemas. Nós já tivemos experiências com salvadores da pátria, como Collor de Mello e Jânio Quadros, e nenhum deles trouxe solução para a sua principal bandeira, em ambos, o combate à corrupção.

As campanhas eleitorais se transformaram em shows de marketing. O candidato escolhe um dos problemas que mais afligem a população e apresenta soluções miraculosas, mesmo estando fora da realidade. Bolsonaro escolheu o tema do combate à violência e em cima dele tem feito a sua campanha e a de seus filhos, sempre com sucesso. Como a população está cansada de ser espoliada pelos criminosos, desde o ladrão pé rapado até o bandido de foro privilegiado, acaba caindo no canto da sereia.

A existência do brasileiro cordial, como pregaram alguns intelectuais, não resiste a uma simples análise. Desde a chegada dos portugueses à Terra dos Papagaios, a violência tem sido uma companheira constante de nossa gente. Boa parte dos indígenas foi dizimada e suas terras usurpadas pelos latifundiários. Ainda na segunda metade do século passado os jornais estamparam a foto de uma indígena pendurada pelos pés no galho de uma árvore. Depois ficamos sabendo que ela foi dividida ao meio pelo golpe de facão no meio das pernas. Os negros foram domesticados a golpe de chibata. As sinhazinhas não ficavam atrás no quesito crueldade. Costumavam colocar as negras mais bonitas dentro dos fornos à lenha onde morriam. Eram punidas duplamente: primeiro estupradas pelo senhor e em seguida assassinadas pela sinhazinha.

O nosso Exército e Marinha agiam com enorme ferocidade quando combatiam o inimigo interno. Em Canudos e no Contestado, milhares de adultos e crianças, já prisioneiros, iam para a degola sem qualquer remorso. Em Florianópolis, durante a Revolução Federalista, 180 lideranças políticas foram fuziladas sumariamente por ordem do coronel Moreira César. Mais recentemente, a decapitação voltou a ser praticada contra os guerrilheiros do Araguaia. Até hoje os militares não devolveram os corpos, ferindo um princípio básico dos tratados de guerra.

Este apoio à violência se dá de forma insidiosa através dos meios de comunicação. Os apresentadores dos principais programas policiais de rádio e televisão tem como principal bordão a pena de morte. Alguns chegam ao extremo de concordar com o linchamento de criminosos e seu esquartejamento. Pouquíssimos são aqueles que apontam em outra direção, mostrando que o combate à violência passa por uma polícia mais bem aparelhada e não vingativa, pela oferta de emprego aos jovens, pela criação de áreas de lazer e cultura nos bairros mais violentos etc. Assim foi feito em Medellin, na Colômbia, a cidade mais violenta do mundo na década de 90 e com ótimos resultados.


Diz um antigo ditado popular que cometer um erro é humano; repetir o erro é burrice. Não vamos acreditar em charlatães que oferecem remédios milagrosos para solucionar nossas doenças sociais. O que precisamos são políticas que acabem com a impunidade dos criminosos, principalmente os de alto escalão. Bolsonaro, por exemplo, está há mais de 20 anos no parlamento e não apresentou nenhum projeto sério para acabar com a violência. Ouvimos dele apenas discursos vazios que agradam o ouvido dos mais desavisados. Padre Antônio Vieira escrevia há mais de 300 anos: “Palavras sem obras são tiros sem bala; atroam, mas não ferem”. Vamos lutar por uma sociedade mais humana e igualitária, pois este será o primeiro passo para combater a violência, que deve ser banida desta terra.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Sejamos tod@s vadias!

E se for livre é ser vadia, que sejamos todos vadias!!!!


Por Jeison Heiler

Dia 8 de março - Dia internacional da mulher. Dia daquelas pessoas que pertencem ao denominado gênero feminino. As razões históricas para a data remontam ao movimento operário de trabalhadoras russas e de trabalhadoras organizadas no partido comunista dos Estados Unidos[1]. Essa já é uma coisa que muito pouca gente sabe. Mas para além disso, este artigo quer refletir: porque atribuir um dia específico como data de rememorar as mulheres?


Eis aí uma questão que merece ser pensada desviando-se das respostas usuais. Cabe refletir que a antítese à memória é o esquecimento. Em segundo lugar pode-se refletir que a atribuição da efeméride é uma maneira de despertar atenção à peculiar condição do gênero feminino, como subespécie do gênero masculino.


Boa parte dos direitos relacionados a uma ideia básica de cidadania, como o direito ao voto, por exemplo, foram atribuídos às mulheres muito recentemente. Apesar de se dizer que os regimes democráticos remontam desde a Grécia antiga (sec. V a.C), basta dizer que até os anos 50 a maior parte da população feminina estava impedida do exercício deste direito. Pode-se dizer que, atualmente, as mulheres já podem votar e as coisas mudaram muito, pois até o mercado de trabalho já está aberto para o gênero. É verdade.


Entretanto, estes direitos, conquistados não sem muita luta e resistência pelas mulheres, revestem-se do caráter de sub-direitos, próprios a uma sub-cidadania característica da condição de subespécie ao gênero masculino. Pior, para além da mulher (subespécie) há a mulher subalternizada, negra, velha, deficiente, obesa, pobre, a quem nem mesmo o status de mulher é conferido pela sociedade excludente de tudo aquilo que não possa ser enquadrado nos parâmetros estéticos californianos.


É por isso, dada a condição presente da mulher e daquelas que não figuram nas capas de revistas, nos (i)realty-shows, ou nos programas televisivos exibidos no horário nobre, que cabe lembrar o dia 8 de março não como uma data histórica. Mas como data que registra de maneira indelével a subcondição da fêmea, mãe, mulher, trabalhadora, capa-de-revista, ou artigo de luxo disponível àqueles que pagarem o preço em dinheiros contados.


Cabe ouvir o sentido e toda expressão do grito das mulheres que tem marchado. Elas protestam. E no meio do grito que rompe o silêncio e desafia o punho que ameaça colocam a nu o corpo e a hipocrisia. Colocam a nu o sexo e a sua valia. E se for livre é ser vadia, que sejamos todos vadias!!!!

quarta-feira, 8 de março de 2017

Reflexões sobre 8 de março

          Por Elza Daufenbach
De todas as datas “comemorativas”, por algumas razões, considero oito de março a mais desconfortável. A princípio, esta declaração pode causar estranheza por ter vindo de uma mulher, sendo esta data, o seu dia.

O Dia Internacional da Mulher – referendado pela ONU em 1975 com o objetivo de inserir a reflexão e a luta para a superação da discriminação e do preconceito sobre as mulheres – por uma apropriação capitalista no intuito de alimentar o mercado consumidor, fez com que, para uma parcela considerável da sociedade, se transformasse apenas em um ritual de dar/receber presentes. Percebe-se, assim, que esta manifestação comemorativa é apropriada pela publicidade para reforçar o estereótipo do padrão feminino estabelecido.

Quando alguém me cumprimenta com um “parabéns pelo seu dia”, meu educado agradecimento protocolar não impede que o espírito da inquietude se manifeste em pensamento: “meu dia, mas será que só tenho um dia no ano? De quem são os outros 364 dias?”. Ser parabenizada por ter nascido mulher! Sim, aqui não há opção, diferentemente do dia das mães (ser ou não) ou dos namorados (ter ou não). Porém, o conflito que se manifesta pela linguagem, pela expressão, nem sempre é perceptível, por isso se costuma naturalizar certos procedimentos, tornados mais tarde como uma ação a ser seguida.

Por que as mulheres não são cumprimentadas pelas adversidades enfrentadas na sua luta diária, pelos seus sonhos” que em geral são mais proibitivos para o sexo feminino!? Mas ocorre que a apropriação pelo capital e a cultura machista que tende a fazer pouco caso da histórica luta das mulheres propiciaram a valorização da data em detrimento do seu objetivo. Então o que era luta virou comemoração, o que era reflexão virou homenagem. Portanto, ao invés de “comemorar” o Dia Internacional da Mulher, por que não recolocá-lo no seu objetivo fundante e “celebrá-lo” rememorando a luta histórica, problematizando as lutas atuais, refletindo sobre seus ganhos e perdas. E nesta perspectiva, tivemos recentemente um retrocesso na luta histórica das mulheres brasileiras por direitos e reconhecimento.

Há menos de um ano estamos convivendo com um golpe de Estado que derrubou a primeira mulher eleita e reeleita para presidir o país. Inicialmente, é preciso reconhecer que este golpe não depôs somente a Presidente da República, mas também dizimou a política progressista do bem estar social iniciada com os governos de esquerda. Congelamento de investimentos, cortes nos programas sociais como Bolsa Família, FIES, Minha Casa Minha Vida, dificultarão ainda mais a vida das mulheres que necessitam destes programas para superar as desigualdades socioeconômicas entre os sexos.

Importante mencionar que a campanha arquitetada para depor a Presidente da República incluiu aspectos odiosamente machistas. Alguém já se esqueceu do simbolismo do estupro estampado nos adesivos colados na boca dos tanques de combustível dos automóveis? Das fofocas maledicentes nas redes sociais sobre a sexualidade da Presidente? Das opiniões desabonadoras sobre seu corpo? Dos coros de xingamentos de baixo calão nas cerimônias públicas?  Como não reconhecer a misoginia destas ações? Como não conectá-las com o doloroso preconceito ordenador do papel e do lugar da mulher? Talvez nem devêssemos ver neste tipo de manifestações um recrudescimento do machismo, mas apenas um momento em que ele foi chocantemente verbalizado.

Racionalmente, todas as mulheres deveriam se sentir agredidas com estas manifestações agressivas contra uma mulher, por seu conteúdo discriminatório. No entanto, estranhamente, uma significativa parte das mulheres proferiam estas mesmas agressões contra Dilma Rousseff, usando as mesmas palavras e o mesmo escárnio. Produto da alienação? Da ignorância? Do rastilho de ódio da maquinação pré-golpe? Resultado da cultura machista introjetada? Mas isso não muda e nem ameniza a concretude de que, sim, muitas mulheres sentiram-se confortáveis ofendendo a Presidente pelo fato de ela ser mulher, uma mulher que não era bela, nem recatada e nem do lar. Uma mulher fora do padrão do corpo feminino imposto culturalmente e fora do estereotipo do lugar social reservado às mulheres.

A deposição de Dilma Rousseff significou também a expulsão das mulheres do primeiro escalão do governo. Lamentavelmente, no governo atual, a ausência de mulheres ocupando cargos significou um retrocesso na luta pelo seu empoderamento.

            Assim, neste “Dia da Mulher” há pouco a comemorar e muito o que fazer. Temos que resistir, especialmente neste momento pós-golpe em que direitos conquistados estão sendo retirados. Mas também é preciso reconhecer que “mulher” é uma abstração generalizante, que só existe no plural. Então celebremos a resistência de cada uma das mulheres que lutam para um mundo menos desigual para todas.


terça-feira, 7 de março de 2017

Para que servem as datas comemorativas?

Por Valdete Daufenback

O mito fundador, atribuição à origem de um lugar e à evidência da representação identitária de um coletivo, se constitui de uma narrativa que, além de ser autoritária, elege cor, classe social e é também machista e sexista. Portanto, exclui uma parte para depois incorporar nos excluídos o sentimento de pertencimento periférico com o intuito de fazer parecer a existência de uma unidade harmoniosa, uma representação do espírito positivista Comtiano, uma elevação da ordem coletiva que se desenvolve por estágios.

No vida profissional, em vários municípios de Santa Catarina, ouvi muitas histórias de pessoas que se reconheciam como descendentes daqueles que colonizaram a região, ou seja, parafraseando o filósofo Walter Benjamin, herdeiros daqueles que venceram e dividiram entre si os despojos do resultado da marcha triunfal. No entanto, na sua concepção simbólica, esses herdeiros narradores de histórias não tinham consciência de que traziam consigo a marca da violência, às vezes em seu próprio sangue, ao verbalizar que sua bisavó ou sua avó fora raptada quando menina e ficou presa na posse dos “desbravadores imigrantes” até ela se acostumar com o raptor que a tinha como sua “mulher”, a mãe se seus filhos, frutos de violência sexual, estupro e maus tratos. Seus netos e bisnetos ao narrar a história com satisfação, como uma proeza de virilidade patriarcal, contavam do ponto de vista masculino, sem se questionar sobre o sofrimento que foi esta relação silenciosa por parte daquela mulher que fora tirada à força de sua aldeia e sujeitada pelo poder da suposta superioridade “racial” europeia.

Intrigada com cada histórias que ouvia, passei a prestar mais atenção nas indicações comemorativas e na placas de homenagens aos desbravadores, já que aparecia o nome (masculino) e sobrenome, com raras exceções, um complemento como nota de roda pé: “e suas respectivas esposas”, mas elas não tinham nome. Então anotava estes nomes e acaba descobrindo o nome delas junto ao nome deles na lápide do cemitério, geralmente atrás de uma antiga igreja. Ou seja, elas passavam a existir, reconhecidamente, depois de mortas. A elas não foi dado o reconhecimento de sua importância na construção local, reservando este “mérito” aos detentores dos despojos, aqueles que venceram porque alguém foi vencido.

Mas não é preciso ir muito longe para identificar a narrativa do mito fundador carregada de sentido de exclusão. Um município pode conter em suas entranhas histórias que edificam os vencedores em monumentos sem mostrar o conflito com aqueles que foram vencidos, que omita parte de sua experiência histórica porque não lhe convém, como por exemplo, eleger a data comemorativa alusiva a seu aniversário ao dia da chegada da primeira barca com imigrantes europeus, quando o local ainda pertencia a uma província (município) povoada, em sua maioria, por pescadores e agricultores, nada nobre para quem mais tarde reivindica para si o título de Manchester (sic). Subsumir no mito fundador a data de sua emancipação política (que somente viria acontecer quinze anos após) produz um alento aos herdeiros daqueles que habitam nos cemitérios, pois o sentimento de grandiosidade e o imperativo da superioridade étnica foram salvos.

O mito fundador permite ainda a exclusão do caldo de cultura de um local separando vivos e mortos, na vida real, depois na história, em locais definidos para cada classe, etnia, convicção religiosa. Escravo também não tem sobrenome, só existe porque tem um “senhor”, (assim como as esposas mencionadas acima), por isso não deixaram registros de glória, portanto, não são merecedores de homenagens. Mas pode ser que um dia alguém descubra que em um cemitério destinado a imigrantes, jazem escravos sem nomes que mereçam uma placa e homenagem no dia das comemorações do aniversário da “fundação” da Colônia, para o desconforto de muitos herdeiros dos vencedores.

Assim, para cada descoberta do passado histórico, o mito fundador precisa criar novos adjetivos para a sua reprodução, pelo contrário, de acordo com Benjamin, a história poderá ser iluminada pela centelha de lucidez provocada por historiadores que penteiam a contrapelo os vestígios dos registros deixados pela humanidade.