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quarta-feira, 10 de maio de 2017

Verdades eclesiais


Por Elza Daufenbach

As verdades sempiternas constituem a matéria prima das religiões em si mesmas. No cristianismo estas verdades estão registradas nos textos bíblicos e, juntas, formam “A Verdade”. Ocorre que tais registros não passariam de meros registros sem o necessário proselitismo. Ocorre, também, que os textos que formam as Escrituras contêm enorme quantidade de símbolos, códigos, lacunas e contradições que os tornam ilegíveis se desarticulados do sentido que se quer imprimir a eles. Portanto, antes do prosélito necessita-se do hermeneuta, daquele que tornará legível ao ser humano a escrita de deus. De hermeneutas e prosélitos são feitas as igrejas, o braço burocrático da Palavra divina. Neste texto tratarei da igreja católica, a mais antiga burocracia da religião cristã, que definiu que a palavra divina está contida em 66 textos sobre os quais afirma conhecer as verdades de cada um.

Desde que se firmou como corpo burocrático a igreja necessitou, para a sua existência e credibilidade, amalgamar-se com a Palavra divina, e trazendo para si o domínio das verdades imutáveis, característica da Palavra. O deus não erra e nem muda de opinião, logo, o mesmo vale para a igreja. Mas isto na prática não funciona porque é impossível para pessoas temporalmente localizadas a convivência com verdades atemporais quando estas deixaram ter um mínimo de sentido ou, de proporcionar um mínimo de sentido às suas vidas. Aos poucos a temporalidade se sobrepõe e começam brotar antinomias entre a norma eclesial e a realidade concreta. Sempre que tal acontece a igreja reage de acordo com a realidade histórica na qual está inserida e a condição de plausibilidade que possui diante tal realidade. E reagindo, altera também as suas verdades “incontestáveis”.

Apenas um comparativo histórico linear de verdades: na igreja primitiva a crença no retorno imediato de Jesus; no pós Constantino a religião de Estado e a burocracia complexa; no medievo as cruzadas e a inquisição; o período moderno a caça as bruxas e a Contra Reforma; no século XIX o Ultramontanismo e as resoluções tridentinas; hodiernamente o Vaticano II, a guinada conservadora e o novo aggiornamento proposto por papa Francisco. Quantas verdades diferentes só nestes casos notórios! Quantas crenças e dogmas existiram e foram descartados mediante ação e reação!

Isso significa que, ao contrário do que dá a entender, a condição da existência da igreja católica não provém do seu discurso dogmático, mas sim sua capacidade camaleônica de adaptar-se segundo a “estrutura de plausibilidade” que possui em cada momento de “crise de sentido” da verdade divina.

Para cada crise se faz necessária uma nova exegese da Palavra em seus pontos nevrálgicos. Assim, a longa duração da igreja católica pode ser atribuída, em grande parte, a sua capacidade de negociar suas próprias verdades. Como, ademais, qualquer empresa terrena que reavalia e modifica seus produtos, quando estes não correspondem mais aos objetivos empresariais.

2 comentários:

  1. Texto sensacional Elza! Você poderia indicar aos leitores outras fontes para aprofundamento no tema?

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  2. Grata,Jeison!
    Segue, então, algum material que considero importante para compreender a história da igreja católica.
    - Os documentos pontifícios,como bulas,resumos conciliares,exortações e outros são de importantes para quem quer conhecer a igreja catolica e observar seus movimentos adaptativos ou reativos.
    - Eamon Duffy: "Santos e Pecadores:a história dos papas". Livro bem didático sobre a atuação do papado ao longo do tempo.
    - Peter Berger: "O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião"; "A construção social da realidade" (este último em parceria com Thomas Luckmann. Desmistifica a ideia de 'natureza humana' e desenvolve a noção de 'estrutura de plausibilidade', essencial para perceber os limites das permanências.
    -Max Weber: "Metodologia das Ciências Sociais"; "Ensaios de Sociologia"; "A ética protestante e o espírito do capitalismo". Para quem quer entender o "como" ao invés do "por quê".
    Pierre BOURDIEU: "Economia das trocas simbolicas"; "O poder simbólico". Para aprender a olhar a igreja católica como uma empresa que negocia com bens de salvação... mercadoria imaterial.
    -Elza Daufenbach Alves:"Nos bastidores da Cúria: desobediência e conflitos relacionais no intra-clero catarinense (1892-1955)" (tese, disponível no portal do MEC". Uma dessacralização do clero que facilita o distanciamento necessário para compreender a igreja católica.

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