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Livre trânsito para todas as idéias

terça-feira, 23 de maio de 2017

Alegria do Amor em todas as suas manifestações

Por Elza Daufenbach

Etimologicamente, crise (krísis) significa um momento difícil e decisivo. O momento da mudança, da tomada de decisão. Para a medicina grega antiga era o período em que o doente, depois de medicado, iria viver ou morrer. Seguindo este raciocínio, a igreja católica é uma sobrevivente de vinte séculos de múltiplas crises, ocasionadas por guerras, perda de territórios, traições, rupturas internas, dissidências, quebra de hegemonia entre outras. Mas desde a industrialização dos países que formam a cristandade, uma “doença” rara tem se tornado recorrente: o descolamento entre doutrina e realidade empírica. Em outras palavras, o “mal silencioso” da falta de sentido entre religião e vida concreta, causador da perda de adeptos.

Visando resolver a atual crise de sentido por qual passa o catolicismo, a cúpula da igreja tem se empenhado em tecer uma atualização exegética que coloque a igreja em sintonia com o cotidiano. Ou seja, uma revisão de certos parâmetros ou, ainda, a renegociação de algumas de suas verdades. Seria apenas uma velha receita da igreja como condição de sobrevivência se a pessoa responsável por realizar este aggiornamento não fosse Jorge Mario Bergoglio, o carismático Papa Francisco.

Numa linguagem weberiana, Francisco se aproxima do “tipo ideal” de cristão, justamente porque contém em si os atributos mais puros do discurso cristão: humildade, compaixão, compromisso com a justiça, fé, e uma profunda identificação com os marginalizados da sociedade (seja por miséria ou por preconceito). Acrescentem-se ainda as qualidades pessoais da empatia, inteligência, diplomacia e bom humor. Tem-se aí um paradoxo: o fato de ser um papa o detentor deste conjunto de atributos cristãos o torna historicamente um “estranho no ninho”, levando as pessoas mais atentas às questões eclesiais a sentir espanto e surpresa com os seus pronunciamentos, gestos e decisões. É estranho que o esperado de um papa seja justamente o não esperado de um papa. É estranho que tanta coerência entre o discursivo e o vivenciado nos pareça estranho. Francisco surpreende.

Uma das surpresas do papado de Francisco chama-se “Amoris Laetitia”. A exortação eclesiástica “Alegria do Amor” versa sobre a família. Pode inclusive ser entendida como “não muito diferente” do que já foi escrito; mas isto se o leitor for preguiçoso e/ou conservador. Alguém com preguiça de pensar não entenderá as mudanças de paradigmas propostas no documento; já um conservador irá se posicionar contrário à estas mudanças e lutará para entender tudo metaforicamente, conforme costuma ser a escrita eclesiástica. (É claro que desde a industrialização tivemos uma “revolução” eclesial semelhante, chamada Concílio Vaticano II. Porém, o Vaticano II foi a “Revolução dos Cravos” da igreja católica: sonhado, vivido e abandonado. No entanto (assim como Portugal), o catolicismo não foi mais o mesmo depois dele).

Em Amoris Laeticia, pode-se dizer que Francisco acolheu as sugestões mais progressistas do alto clero progressista, inclusive retomando temas do Vaticano II. É uma exortação totalmente inclusiva. De início Francisco critica o costume da Igreja de recusar uma realidade para mais tarde incluir. A partir desta observação imprime-se uma expressiva renegociação do conceito de família como verdade eclesial: cai a hegemonia da família estrutural para acolher a família funcional. Ou seja, Francisco insere como válido para a Igreja Católica toda a forma de amor familiar, sem discriminação. Surpreendente!

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