Dilney Cunha
Historiador
Em Joinville (assim como em outras cidades), ocorrem todos os anos inúmeras celebrações ao “deus Progresso”, que também atende pelos nomes de “Modernidade” e “Desenvolvimento”. O ponto alto são os rituais de demolição, nos quais os idólatras abatem um exemplar da “velha e feia” arquitetura da cidade, para abrir caminho ao Progresso, em sua marcha contínua e triunfal. Sobre os despojos (ruínas) do passado morto, levanta-se mais um templo em honra à citada divindade. Nenhum sinal, vestígio ou memorial para lembrar daquilo que um dia foi o que o novo templo é a partir de agora: um monumento ao presente e um prenúncio de um futuro grandioso.

Essa cerimônia vem se repetindo desde as origens da nossa cidade. Afinal, Joinville nasceu como um empreendimento de uma sociedade colonizadora, formada por grandes empresários de Hamburgo, tradicionalíssima cidade portuária e comercial alemã. Destinava-se portanto a dar lucros aos seus acionistas através do transporte de imigrantes e da venda de terras aos mesmos.
De colônia agrícola, entretanto, a cidade transformou-se rapidamente em um centro industrial e comercial, com a chegada de profissionais especializados, comerciantes e empresários europeus e brasileiros, que traziam capitais para aqui investir. É possível perceber então nos discursos das elites da colônia o culto ao progresso.
Porém, é no início do século XX que se vê claramente o esforço do governo e das elites locais, sintonizadas com as elites catarinenses e nacionais, em “modernizar à européia” Joinville, seguindo o exemplo de outras cidades brasileiras, tendo como modelo a capital federal (vide reforma Pereira Passos no Rio de Janeiro). Provavelmente foi a primeira vez que se procurou fazer um planejamento urbano na cidade, que tinha nessa época 15.380 habitantes, sendo 3.379 na área urbana e 12.001 na área rural. Vemos a delimitação de um espaço urbano central em Joinville e a diversificação das atividades econômicas. Iniciaram-se o alargamento e arruamento das vias centrais, a instalação de tubos, da rede de água, da energia elétrica, da ferrovia e do serviço de bondes; implementou-se ainda a reforma do ensino.
O superintendente (prefeito) Procópio Gomes pedia a alteração no Código de Posturas quanto às edificações urbanas “em favor do aformoseamento e da saúde pública”. Para ele, as antigas construções tinham um “estilo uniforme e desgracioso...” imprimindo um “aspecto aldeão e colonial à nossa cidade”. O governo municipal passou então a conceder isenção de imposto para quem construísse prédios “modernos”.
Uma onda de demolições das tais casas “coloniais desgraciosas” e de construções de edifícios “elegantes e modernos” tomou conta da cidade. São desse período os palacetes e prédios em estilo eclético da área central, como os da Rua do Príncipe, que ainda hoje, tombadas como patrimônio, testemunham essa “belle époque” joinvilense ou que, para os atuais adoradores da modernidade, ironicamente nada mais são do que construções “desgraciosas” que deveriam ser colocadas abaixo.
Tais transformações não se deram sem provocar reações da população, como a do cidadão que manifestou sua tristeza pela destruição do antigo Hotel Ypiranga, na Rua Conselheiro Mafra (atual Abdon Baptista), em uma longa carta publicada no jornal “Commercio de Joinville” (23/08/1913). Nela o autor descreve em detalhes os ambientes do velho casarão (que também serviu de estação telegráfica), os acontecimentos marcantes, os freqüentadores habituais, entre eles várias figuras famosas da sociedade local que ali se reuniam para jogar cartas, apreciar as serenatas ao violão, tomar um café, conversar e discutir sobre política. “E tudo isso” diz ele, sem disfarçar já uma nostalgia, “toda essa jovialidade da vida pacata daquelles tempos teve origem nesse velho prédio que a picareta está demollindo, como que desmoronando as recordações dos bons tempos de verdadeira e irreproduzível cordialidade. Cada pedra que cahe, cada tijolo que se retira, são pedaços do passado que a velha casa recordava. Amanhã, ao tornar à rua Conselheiro Mafra verei o ex-Ypiranga todo outro: novo, elevado e limpo, mas sem despertar a consoladora lembrança de tempos de que muitos, como eu, conservam, por certo, uma imperecível saudade”.
Mais recentemente (1982), outro caso envolvendo uma edificação histórica opôs defensores do patrimônio e modernólatras, porém com um desfecho diferente. O foco das atenções desta vez foi o antigo Palacete Niemeyer, adquirido pelo Banco do Brasil, que planejava demoli-lo para ali construir sua nova e imponente sede. Construído em 1905, o palacete serviu de residência para a família de Louis Niemeyer, rico comerciante, filho do ex-diretor da Colônia Dona Francisca, Johann Otto Louis Niemeyer. O prédio era um típico representante da arquitetura eclética daquele período de urbanização de Joinville citado anteriormente. Com seu ar senhorial, refletia o gosto estético e o poderio econômico da burguesia do período. Sua presença dominava a paisagem urbana central. Mesmo assim, empresários, artistas, arquitetos e até mesmo historiadores apoiaram publicamente a sua demolição, usando o mesmo discurso de décadas atrás: argumentavam que a edificação não tinha nenhum valor histórico e que o novo prédio embelezaria o centro da cidade, além de contribuir para o desenvolvimento de Joinville.
Por outro lado, um grupo de moradores organizou um movimento para defender o patrimônio histórico da cidade. Depois de tentar sem sucesso obter o apoio das autoridades e da direção do banco, pediram a interferência da Fundação Nacional Pró-Memória, ligada ao SPHAN (atual IPHAN). Solicitou-se então que o renomado engenheiro alemão Udo Baumann emitisse um parecer técnico sobre o caso. No seu laudo, ele destacou a importância do palacete como patrimônio da cidade pelo seu raro valor arquitetônico, artístico e urbanístico. O parecer foi entregue à direção do Banco do Brasil, que então criou um novo projeto e construiu sua sede ao lado do antigo prédio.
Em 2010, tive o prazer de acompanhar um grupo de cerca de 40 pessoas da Família Niemeyer, vindas de diversas partes do país, alguns dos EUA e da Europa. Visitamos é claro o palacete, onde foram recebidos por representantes do governo municipal. Alguns apreciavam da sacada a bela vista que seus antepassados tinham da Rua do Príncipe, outros andavam curiosos pelos cômodos do casarão; lembravam das histórias da família, contadas pelos mais velhos. Visivelmente emocionados, agradeciam pela oportunidade de “reencontrar o passado e conhecer melhor suas raízes”.
Podemos perceber como o patrimônio edificado, para além de sua importância meramente estética, está carregado de simbolismos, valores, e tem o poder de suscitar memórias pessoais ou coletivas, ajudando na (re)elaboração das identidades. Algo com o que o culto à modernidade não se preocupa; pelo contrário, condena o passado ao esquecimento e exalta o presente, corta o elo vital que une os tempos, as gerações através da transmissão das experiências, dos saberes e que Benjamin denominou de Tradição. “É tal a força da solidariedade das épocas” diz Marc Bloch “que os laços de inteligibilidade entre elas se tecem verdadeiramente nos dois sentidos. A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”.
E para combatermos essa falta de sentido, esse deslocamento que nasce da destruição inconsequente do passado, recorremos às memórias, inscritas muitas vezes em espaços e monumentos. O patrimônio material, incluindo aqui o arquitetônico constitui-se assim em uma rica fonte de aprendizado e conhecimento sobre a cidade e seus habitantes. Ele contém informações que remetem a saberes e fazeres individuais e coletivos, indicam os diferentes usos e significados a ele atribuídos em diversas épocas. Sua “leitura” torna-se dessa forma essencial para que a população reconheça nesse patrimônio elementos de sua história e identidade e sinta-se sujeito participante da construção do local.
Vê-se portanto que é falsa a oposição desenvolvimento x preservação. Passado e presente podem e devem conviver harmonicamente; não se excluem nem se destroem, quando há boa vontade e honestidade por parte dos cidadãos e dos governantes.