Por Victor A. Danich - Sociólogo
Ser argentino, entre outras coisas, é ter medo de que algo terrível aconteça em qualquer dia, ao virar a esquina. Todos os argentinos maiores de 50 anos foram contemporâneos e sobreviventes de cinco crises econômicas dramáticas que transformaram suas vidas e deixaram uma marca indelével de alerta e temor.

E os que são mais novos receberam, quase por transmissão genética, a memória emotiva desses traumas. Por isso, nessa semana, quando o peso argentino voltou a afundar, quando sua desvalorização foi a mais alta do continente, quando o Banco Central precisou vender 6 bilhões de dólares (21 bilhões de reais) de reservas sem conseguir conter o aumento do dólar, quando a revista Forbes colocava na manchete: “É hora de fugir rapidamente da Argentina”, todos os medos voltaram a se instalar no coração dos habitantes do país. E o medo, sabemos, não é um componente que ajuda muito a superar uma situação como essa.
O desencadeador da tempestade foi a decisão do Banco Central dos EUA de subir a taxa de bônus do Tesouro norte-americano. Isso causou uma fuga de fundos do mundo inteiro em direção a Wall Street. Os principais investidores se livraram de suas posses em moeda estrangeira e muitas delas desvalorizaram. Mas nenhuma como a moeda da Argentina: o peso caiu aproximadamente 14% em poucos dias. O castigo extra ocorre por duas razões.
Uma delas é conjuntural: no mesmo momento em que a taxa dos bônus norte-americanos subia, a Argentina aplicava um imposto aos investimentos estrangeiros. Os jovens de Wall Street não gostam disso, como pudemos ver.
A segunda causa do castigo extra é estrutural. A Argentina tem enormes déficits fiscais e comerciais e os financia com dívida. Sua vulnerabilidade, portanto, é maior do que a dos outros países da região. A saída de capitais foi, então, torrencial. E o peso desvalorizou violentamente.
O medo, essa típica reação argentina, causa muitas vezes uma profecia autocumprida. Há muitas décadas, cada movimento exótico do dólar atrai imediatamente a atenção de todos os atores sociais. Quando o dólar sobe, todos sabem que todos comprarão dólares para precaverem-se de novos aumentos, e então todos compram dólares e provocam esse aumento: isso se chama comportamento em manada. O que poderia ser um problema menor chega então a níveis irracionais.
Ser argentino, entre outras coisas, é ter medo de que algo terrível aconteça em qualquer dia, ao virar a esquina. Todos os argentinos maiores de 50 anos foram contemporâneos e sobreviventes de cinco crises econômicas dramáticas que transformaram suas vidas e deixaram uma marca indelével de alerta e temor.

E os que são mais novos receberam, quase por transmissão genética, a memória emotiva desses traumas. Por isso, nessa semana, quando o peso argentino voltou a afundar, quando sua desvalorização foi a mais alta do continente, quando o Banco Central precisou vender 6 bilhões de dólares (21 bilhões de reais) de reservas sem conseguir conter o aumento do dólar, quando a revista Forbes colocava na manchete: “É hora de fugir rapidamente da Argentina”, todos os medos voltaram a se instalar no coração dos habitantes do país. E o medo, sabemos, não é um componente que ajuda muito a superar uma situação como essa.
O desencadeador da tempestade foi a decisão do Banco Central dos EUA de subir a taxa de bônus do Tesouro norte-americano. Isso causou uma fuga de fundos do mundo inteiro em direção a Wall Street. Os principais investidores se livraram de suas posses em moeda estrangeira e muitas delas desvalorizaram. Mas nenhuma como a moeda da Argentina: o peso caiu aproximadamente 14% em poucos dias. O castigo extra ocorre por duas razões.
Uma delas é conjuntural: no mesmo momento em que a taxa dos bônus norte-americanos subia, a Argentina aplicava um imposto aos investimentos estrangeiros. Os jovens de Wall Street não gostam disso, como pudemos ver.
A segunda causa do castigo extra é estrutural. A Argentina tem enormes déficits fiscais e comerciais e os financia com dívida. Sua vulnerabilidade, portanto, é maior do que a dos outros países da região. A saída de capitais foi, então, torrencial. E o peso desvalorizou violentamente.
O medo, essa típica reação argentina, causa muitas vezes uma profecia autocumprida. Há muitas décadas, cada movimento exótico do dólar atrai imediatamente a atenção de todos os atores sociais. Quando o dólar sobe, todos sabem que todos comprarão dólares para precaverem-se de novos aumentos, e então todos compram dólares e provocam esse aumento: isso se chama comportamento em manada. O que poderia ser um problema menor chega então a níveis irracionais.
Mas além disso, os formadores de preço reagem e impulsionam a inflação além do esperado porque especulam em meio à desordem e porque é a maneira histórica que encontraram para se precaver em meio à tempestade. Todos perdem nesse jogo, mas o que fica de fora acredita que perde mais e então também entra. Por isso, as consequências de uma desvalorização são piores na Argentina do que nos outros países da terra. Nessa semana o Brasil, o Chile e o Uruguai tiveram desvalorizações. Ninguém teme que nesses lugares os preços sejam reajustados. Na Argentina, por outro lado, é um fato. Saída de capitais, respingo inflacionário, aumento de juros para conter os danos, efeitos recessivos de alguma magnitude como consequência dos juros astronômicos e medo porque tudo isso ocorre ao mesmo tempo, e porque o medo chama medo. Com as coisas nesse ponto, a inquietação mais frequente em Buenos Aires, nesses dias, se traduz em uma pergunta que surpreenderia qualquer habitante de outro país: “Cara, qual é o valor do dólar?”.
O Governo afirma que é uma tempestade passageira. (Que outra coisa um Governo poderia dizer?) e argumenta que o estado da economia real, a relação entre a dívida e o que se produz no país, a quantidade de reservas que se mantêm no Banco Central, tudo isso finalmente irá se impor sobre movimentos disruptivos de curto prazo e sobre esse medo tão tipicamente argentino.
* Precio del dolar hace 10 dias = $ 20,70.- hoy 14/5/2018 $ 25,52.
* Precio del dolar hace 10 dias = $ 20,70.- hoy 14/5/2018 $ 25,52.
Parabéns Victor. Ótimo artigo. A América Latina é uma só e precisamos nos solidarizar com cada país que del faz parte.
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