Por Valdete Daufenback
Constantemente nas redes sociais, a cada ato do (des)governo Temer e de todo o Congresso e Judiciário, a cada agressão contra a cidadania, contra os direitos conquistados, as perguntas repetidas tendem a intensificar o significado do silêncio que outrora seria impensável:
Por que a população não está na rua?
Por que não se reage diante de tantas injustiças?
Qual a razão desta imobilidade social?
Esta abordagem questionadora a partir destes fragmentos teóricos pode ser muito interessante e necessária, mas é, ao mesmo tempo, intrigante pela maneira como se atribui ao outro a responsabilidade em mobilizar as manifestações populares pelo seu próprio descontentamento político. Quem pergunta nas redes sociais talvez tenha a intenção de fazer uma chamada para o debate no campo intelectual, reflexão sempre bem-vinda, mas com pouca perspectiva de iniciar um movimento que resulte em uma ação prática no mundo real.
Evidentemente, que não se pode ignorar o papel cognitivo de uma reflexão teórica pela sua capacidade de permitir o conhecimento, mas não significa que por si só, estes fragmentos irão colaborar na construção da práxis transformadora.
Geralmente estas perguntas partem de quem se encontra numa bolha de ideias protegida de riscos que afetam a sua vida profissional e que tem direitos reservados pelas condições conquistadas, realidade diferente do trabalhador que vê a perda gradativa de seus direitos e sem poder se manifestar porque vive sob pressão e submetido a constante vigilância dentro e fora do mundo do trabalho. A perda do emprego se constitui um problema muito maior e irreparável, seria uma ameaça imediata à sua sobrevivência.
A intenção aqui não é trazer à baila os motivos que golpearam a democracia, mesmo porque as manobras que começaram em 2013 com os “vinte centavos” ainda estão em curso arrebentando cofres públicos em benefício da uma quadrilha que, como no jogo da dança das cadeiras, permanecem na brincadeira aqueles que manifestam um espírito agressivo e estratégias capazes de estabelecer uma relação que se pareça amistosa no processo da disputa.
Quem mais perdeu direitos nesta brincadeira toda foram os trabalhadores, aqueles responsáveis pela produção de riquezas, aqueles que transformam a matéria prima em produtos com o suor de seu rosto e de suas mãos calejadas (mesmo que simbolicamente, diante dos recursos tecnológicos das grandes empresas de produção fabril). Considerando que o trabalho também produz o trabalhador, este, visando a sobrevivência, aliena-se a si mesmo para atender aos interesses do capital e, ao mesmo tempo, vive com medo de que um concorrente possa ocupar a sua vaga caso não seja mais tão produtivo para corresponder às expectativas de quem o contratou.
Nesta perspectiva, seria pedir demais que os trabalhadores fossem para as ruas protestar contra a perda dos direitos. O eco do seu silêncio incontido diante de atual situação do (des)governo Temer precisa ser compreendido na dimensão teórica no mundo das ideias. Somos um país que historicamente pratica a violência contra trabalhadores, herança de séculos de escravidão legitimada por um poder socioeconômico. Somos uma população desestimulada à participação nas esferas públicas e por não compreender as nuances da política renega a democracia ao preferir governos autoritários que prometem a promoção da economia e da segurança, mesmo que seja pela ação da exclusão e uso da violência.



