O QUE É ZARCO LIVRE?

Zarco é uma gíria usada pelos moradores de Joinville para ônibus. Portanto, o Zarco Livre está aberto para transportar o leitor a novas ideias, tendo como parâmetro o respeito à democracia, à verdade e à dignidade humana.

Livre trânsito para todas as idéias

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O SILÊNCIO E A INÉRCIA DE QUEM PERGUNTA

Por Valdete Daufenback

Constantemente nas redes sociais, a cada ato do (des)governo Temer e de todo o Congresso e Judiciário, a cada agressão contra a cidadania, contra os direitos conquistados, as perguntas repetidas tendem a intensificar o significado do silêncio que outrora seria impensável:

Por que a população não está na rua? 
Por que não se reage diante de tantas injustiças? 
Qual a razão desta imobilidade social?

Esta abordagem questionadora a partir destes fragmentos teóricos pode ser muito interessante e necessária, mas é, ao mesmo tempo, intrigante pela maneira como se atribui ao outro a responsabilidade em mobilizar as manifestações populares pelo seu próprio  descontentamento político. Quem pergunta nas redes sociais talvez tenha a intenção de fazer uma chamada para o debate no campo intelectual, reflexão sempre bem-vinda, mas com pouca perspectiva de iniciar um movimento que resulte em uma ação prática no mundo real.

Evidentemente, que não se pode ignorar o papel cognitivo de uma reflexão teórica pela sua capacidade de permitir o conhecimento, mas não significa que por si só, estes fragmentos irão colaborar na construção da práxis transformadora.

Geralmente estas perguntas partem de quem se encontra numa bolha de ideias protegida de riscos que afetam a sua vida profissional e que tem direitos reservados pelas condições conquistadas, realidade diferente do trabalhador que vê a perda gradativa de seus direitos e sem poder se manifestar porque vive sob pressão e submetido a constante vigilância dentro e fora do mundo do trabalho. A perda do emprego se constitui um problema muito maior e irreparável, seria uma ameaça imediata à sua sobrevivência.

A intenção aqui não é trazer à baila os motivos que golpearam a democracia, mesmo porque as manobras que começaram em 2013 com os “vinte centavos” ainda estão em curso arrebentando cofres públicos em benefício da uma quadrilha que, como no jogo da dança das cadeiras, permanecem na brincadeira aqueles que manifestam um espírito agressivo e estratégias capazes de estabelecer uma relação que se pareça amistosa no processo da disputa.

Quem mais perdeu direitos nesta brincadeira toda foram os trabalhadores, aqueles responsáveis pela produção de riquezas, aqueles que transformam a matéria prima em produtos com o suor de seu rosto e de suas mãos calejadas (mesmo que simbolicamente, diante dos recursos tecnológicos das grandes empresas de produção fabril). Considerando que o trabalho também produz o trabalhador, este, visando a sobrevivência, aliena-se a si mesmo para atender aos interesses do capital e, ao mesmo tempo, vive com medo de que um concorrente possa ocupar a sua vaga caso não seja mais tão produtivo para corresponder às expectativas de quem o contratou.

Nesta perspectiva, seria pedir demais que os trabalhadores fossem para as ruas protestar contra a perda dos direitos. O eco do seu silêncio incontido diante de atual situação do (des)governo Temer precisa ser compreendido na dimensão teórica no mundo das ideias. Somos um país que historicamente pratica a violência contra trabalhadores, herança de séculos de escravidão legitimada por um poder socioeconômico. Somos uma população desestimulada à participação nas esferas públicas e por não compreender as nuances da política renega a democracia ao preferir governos autoritários que prometem a promoção da economia e da segurança, mesmo que seja pela ação da exclusão e uso da violência. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A justiça falha quando tem lado

Por Domingos Miranda

A justiça no Brasil virou piada. Os juízes e procuradores são símbolos dos “marajás” no funcionalismo público. Muitas de suas sentenças e ações causam espanto e uma ex-ministra da Justiça da Alemanha, Herta Däubler-Gmelin, disse que “aqui é outro mundo”. Durante visita ao nosso país acrescentou: “Então eu posso entender a certa descrença que há aqui no atual desempenho do Judiciário, de alguns juízes e juízas”. Quando o povo deixa de acreditar na justiça fica muito mais difícil fazer valer a lei.

Ao longo da história vemos que a justiça tem lado e já cometeu erros assombrosos. Uma das sentenças mais absurdas aconteceu há 90 anos, nos Estados Unidos, quando os imigrantes italianos Nicolas Sacco e Bartolomeu Vanzetti foram condenados à morte. Houve protestos dos operários e da sociedade em diversas cidades do mundo pedindo clemência. Mas a Suprema Corte e o presidente dos Estados Unidos se negaram a mudar a pena e, no dia 23 de agosto de 1927, os dois líderes operários foram executados na cadeira elétrica.

Jornal americano noticia a morte dos dois líderes operários.

Nicolas Saco era filho de camponeses pobres e emigrou da Itália para os EUA em 1908. Chegou a passar fome e trabalhou em diversas fábricas. Logo se envolveu nas lutas por melhores condições e trabalho e passou a atuar no sindicalismo revolucionário e anarquista.

Bartolomeu Vanzetti teve envolvimento com ideias religiosas e humanistas na juventude. Quando chegou na América viu “todas as brutalidades da vida, todas as injustiças e as depravações em que se debate tragicamente a humanidade”. Nesta época se desligou de quaisquer instituições religiosas e passou a estudar teóricos como Bakunin, Marx, Kropotkin, Gorki, Tolstoi, entre outros. Lia estas obras durante a madrugada, após as longas jornadas de trabalho na fábrica. Tornou-se importante liderança do movimento operário e um convicto anarquista.

Na década de 20 o movimento operário crescia e a polícia realizava verdadeiras caçadas aos seus líderes. Somente no dia 2 de janeiro de 1920 foram realizadas batidas policiais em 33 cidades e expedidos 6 mil pedidos de prisão. Neste ambiente de repressão aconteceu um assalto a uma fábrica de calçados na cidade de South Braintree, no Estado de Massachussets, onde foram mortas duas pessoas. Vinte dias depois Sacco e Vanzetti foram presos nas proximidades de Boston. Inicialmente foram acusados de porte ilegal de armas – um costume comum para a maioria dos americanos – e depois acusados de dois assassinatos, ocorridos em abril do mesmo ano.

A imprensa conservadora logo encontrou nos dois operários o bode expiatório para aqueles conflitos sociais que ocorriam e tratava os líderes anarquistas como “bandidos italianos”. Em pouco tempo a classe média já tinha tomado um posicionamento contrário aos réus. Mais de 107 pessoas testemunharam que os acusados não estavam no local do crime. Nada disso adiantou. Mesmo sem provas, o juiz condenou os dois à pena de morte.

O jurista Edmund Morgan, da Universidade de Harvard, investigou o processo durante vários anos e, em 1948, chegou à conclusão que a justiça havia cometido um grande erro. Ele disse que Sacco e Vanzetti foram “vítimas de uma sociedade preconceituosa, chauvinista e perversa”. Em 1977, cinquenta anos depois da execução, o governador de Massachussets, Michael Dukakis, promulgou um documento absolvendo os dois condenados.
 
A história de Sacco e Vanzetti virou filme e tema de música da cantora Joan Baez

Passaram-se os anos e o preconceito continua tendo um peso enorme na mente dos juízes, principalmente no Brasil. Condenar o réu sem provas – como aconteceu com Sacco e Vanzetti – é o maior absurdo dentro do judiciário e tal prática deve ser banida para sempre.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Anita Garibaldi e outras heroínas brasileiras

Por Domingos Miranda

No dia 4 de agosto de 1849 morria, na Itália, a catarinense Anita Garibaldi, a maior guerreira de nossa história. Ela, ao lado de seu marido Giuseppe Garibaldi, participou de lutas libertárias no Brasil, Uruguai e Itália, sendo reconhecida como “a heroína de dois mundos”. No entanto, por mais de um século seu nome ficou na penumbra por causa de preconceitos, principalmente por causa da igreja católica, que não aceitava o seu relacionamento com o companheiro, mesmo depois do
desaparecimento de seu primeiro marido. Por isso Anita, cujos restos mortais estão em terras italianas, é mais reverenciada no exterior do que em sua terra natal. 

Anita Garibaldi participou de lutas heróicas e mostrou uma coragem fenomenal, mas para um país machista, isso não era suficiente para derrubar as barreiras do preconceito. Foi preciso contar com o nome de seu marido, considerado o maior herói da unificação italiana e da Revolução Farroupilha, para que nossa heroína passasse e figurar nos compêndios escolares.

Giuseppe Garibaldi carrega o corpo de Anita enquanto era perseguido pelos inimigos.


Outras representantes do sexo feminino tiveram destaque no avanço das lutas sociais e continuam no ostracismo. Basta citar alguns nomes: Maria Ortiz, que liderou a expulsão dos invasores holandeses em Vitória (ES); Luísa Mahin, que participou de todas as revoltas de escravos em Salvador, no início do século 19; Leolinda Daltro, defensora dos direitos das mulheres e dos índios há mais de cem anos; Maria Lacerda de Moura, uma fervorosa militante do movimento operário na primeira metade do século\20.

Bem perto de nós está um exemplo concreto da invisibilidade de alguns personagens de nossa história por causa do preconceito. A primeira mulher imigrante a pisar nas terras onde seria Joinville foi a professora, jornalista e escritora alemã Julia Engell-Günther. No início de 1850 viajou para Santa Catarina vestida como homem, acompanhando o agrimensor Hermann Günther, encarregado pela companhia alemã de Hamburgo de montar a infraestrutura capaz de receber os imigrantes que começariam a chegar no ano seguinte. Com a demissão de seu marido, Julia mudou-se para Limeira,
interior de São Paulo, onde montou uma escola. Mesmo tendo ficado pouco mais de um ano em Joinville, a jornalista escreveu artigos para jornais alemães incentivando a imigração e foi a autora dos desenhos das primeiras casas construídas no meio da selva.


Julia Engell-Günther, uma feminista no século 19.

Em 1859, Julia, seu marido e o filho voltaram para a Alemanha, onde ela escreveu livros e contos abordando a realidade brasileira. Também foi uma ativa colaboradora dos jornais socialistas, sempre ressaltando a importância da participação da mulher nos destinos da sociedade. Com todo este cabedal de conhecimento, Julia Engell permaneceu uma desconhecida para os historiadores porque, em 1853, o capitão Theodor Rodowicz-Oswiecimsky escreveu um livro sobre os primórdios de Joinville e citou que ela era “amásia” de Hermann Günther. Isto foi suficiente para que a sociedade
conservadora e puritana apagasse o nome desta escritora da história. Há cerca de 40 anos a historiadora Elly Herkenhoff a retirou do esquecimento.

São casos como este que mostram que a sociedade ainda apresenta um certo ranço machista, não dando o devido valor a mulheres de valor que lutaram por nobres ideais. Que não só o nome de Anita Garibaldi seja homenageada no panteão das heroínas, mas todas as mulheres que contribuíram para uma sociedade mais justa e igualitária.