O QUE É ZARCO LIVRE?

Zarco é uma gíria usada pelos moradores de Joinville para ônibus. Portanto, o Zarco Livre está aberto para transportar o leitor a novas ideias, tendo como parâmetro o respeito à democracia, à verdade e à dignidade humana.

Livre trânsito para todas as idéias

domingo, 25 de fevereiro de 2018

A mentira corrói a sociedade

Domingos Miranda

A mentira é o produto mais disseminado em nossa sociedade. Ela está presente entre os governantes, na imprensa, no judiciário e até mesmo nos meios religiosos. O povo, aturdido diante de tanta desinformação, muitas vezes acaba tomando caminhos prejudiciais a si mesmo. Um exemplo marcante desta tática dos poderosos foi a intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro. Diante da total desmoralização do governo federal, o que ficou patente nos desfiles das escolas de samba, o presidente Temer optou por uma ação de marketing para procurar reverter o quadro. Num primeiro momento a população apoia esta manobra, achando que poderá conter a violência. Mas nada de novo sairá desta cartola, senão o velho refrão de criminalizar os pobres.

A atitude de Temer e seu entorno foi tão atabalhoada que nem o interventor, general Braga Neto, na coletiva à imprensa não sabia o que dizer. Num gesto sincero numa hora destas, afirmou que a operação acontecia por causa da mídia. Realmente, a Globo colocou na telinha, diariamente, cenas que pareciam uma guerra urbana. Na verdade, outros nove Estados estão com nível de violência bem superior ao do Rio de Janeiro e não se falou em intervenção neles.



Em um primeiro momento poderá haver certo apoio à decisão de Temer. No entanto, à medida que a população for vendo que o espetáculo é o mesmo das outras 21 intervenções militares no Rio e que só em uma delas conseguiu reduzir a violência, então sentirá que foi ludibriada. O combate ao tráfico de drogas se dá basicamente nas favelas, com invasões de residências e atropelos nas ruas, não respeitando nem mesmo as crianças que têm suas mochilas revistadas. Os barões da cocaína estão instalados nas mansões da Zona Sul carioca, mas nunca são incomodados. O filme Tropa de Elite 2 deixou isto bem evidente.

A verdade é que o tráfico movimenta muito dinheiro e aí há um jogo de sutilezas para enganar o público. O serviço de inteligência sabe muito bem quem coordena esta rede de propinas, mas não tem forças ou interesse em fazer supurar este tumor. O ministro da Justiça disse, no final do ano passado, que todos os comandantes de batalhões da PM do Rio estavam envolvidos com o tráfico. Nenhuma medida foi tomada pra reverter este quadro. Será que uma quadrilha vai querer desmontar a outra quadrilha? Ou vão se chegar a um acordo para continuar obtendo as benesses do crime sem prejudicar um ao outro? Enquanto isso o povo paga o pato.

Mais cedo ou mais tarde a verdade virá à tona. Até lá a maioria acreditará que este espetáculo militar irá resolver o inferno criado por governantes corruptos. Quando o governo desmoralizado não tem nada de bom para oferecer à sociedade, apela para a fantasia. Mas um dia a casa cai e não sairá mais coelho da cartola. Aí o mágico será expulso do palco.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

170 anos do Manifesto, uma obra atual

No final de fevereiro de 1848 foi publicado, em Londres, o Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, trazendo na capa a conclamação "Proletários de todos os países, uni-vos!", adotada pela Liga Comunista – que incumbiu os autores de escrever o texto – em setembro de 1847.

Após 170 anos, a obra dos comunistas que objetivava expor "abertamente, ao mundo inteiro, seu modo de ver, seus objetivos e suas tendências" continua sendo referência da luta dos trabalhadores por uma nova sociedade, sem servidão e opressão, e referência de objetivo a ser combatido pelas classes dominantes que vivem da exploração dos trabalhadores. Como considerou o primeiro biógrafo de Marx, Franz Mehring, em 1917, "uma obra durável e não um panfleto para ser esquecido tão rapidamente quanto lido".

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A busca de unidade dos proletários já era ansiada desde o início dos anos 1840 e estava vinculada, também, à educação dos trabalhadores e seus filhos. Em 1843, Flora Tristan, uma ativista francesa, propôs "a união geral dos operários e operárias, de todo o reino, sem distinção de ofícios. Esta união teria por objetivo construir a classe operária e construir estabelecimentos distribuídos por toda a França. Seriam aí educadas crianças dos dois sexos, dos 6 aos 18 anos, e seriam também recebidos os operários doentes, os feridos e os velhos".

No Manifesto estão muitas formulações e definições que foram posteriormente incorporadas às análises econômicas e sociológicas – socialistas ou não. Nele foram divulgadas pela primeira vez, ou passaram a ser mais conhecidas, proposições como a de que, em cada época histórica, a produção econômica e a estrutura social que dela necessariamente decorre constituem a base da história política e intelectual dessa época; de que a luta de classes é o motor da história, desde a dissolução do regime primitivo da propriedade comum da terra; de que a ideologia de uma época é a ideologia da classe dominante; de que a luta de classes é uma luta política; de que o executivo no Estado moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa, de que, na sociedade, tudo que é solido se desmancha no ar etc.

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Numa nota à edição de 1888, Engels dá uma sucinta definição das classes fundamentais que se digladiam no capitalismo: "Por burguesia entende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social que empregam o trabalho assalariado. Por proletariado, a classe dos assalariados modernos que, não tendo meios próprios de produção, são obrigados a vender sua força de trabalho para sobreviver".

No primeiro prefácio que juntos escreveram após a primeira edição, em 1872, os autores consideram que os princípios gerais expressados no documento conservavam, "em seu conjunto, toda a sua exatidão". Mas que não se deveria "atribuir importância demasiada às medidas revolucionárias propostas no final da seção II". São dez medidas. A décima não era consenso no movimento trabalhista, à época. Inclusive sequer chegou a constar das reivindicações da Associação Internacional dos Trabalhadores (Iª Internacional, fundada em 1864): a responsabilidade do Estado pela educação, proposta pelos belgas, mas rejeitada pelos proletários franceses – que não queriam injunções estatais na formação de seus filhos.

Hoje, ela é pautada em muitas lutas populares: "10. Educação pública e gratuita a todas as crianças; abolição do trabalho das crianças nas fábricas, tal como é praticado hoje. Associação da educação com a produção material etc".

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Desde a publicação do Manifesto, suas críticas ao capitalismo continuam mais atuais que nunca, em tempos de crise climática, subemprego crônico e desigualdade global. A luta pelo socialismo teve e tem muitos avanços e recuos: a Comuna de Paris, as revoluções soviética, chinesa, vietnamita, cubana etc; a ascensão nazi-fascista, a Queda do Muro de Berlim, o avanço neoliberal...

Ao lado da inevitável luta proletária, ficou comprovada também a inflexibilidade do capitalismo, o aprofundamento da polarização e da desigualdade. Segundo o World Wealth and Income Database (WID, banco de dados coordenado, entre outros, pelo economista francês Thomas Piketty), os afortunados que integram o grupo do 1% mais rico da população mundial têm, juntos, 20% da renda mundial; enquanto os 50% mais pobres ficam com cerca de 9% dos rendimentos do planeta. A parcela abocanhada pelos mais pobres está estagnada neste patamar desde 1980. Entre os mais ricos, o rendimento aumentou de 16% do total em 1980 para 20% do total. A concentração de renda dentro dos principais países do mundo aumentou. O Brasil é mencionado como um dos locais mais desiguais do mundo — ao lado da Índia, Oriente Médio e África Subsaariana. De acordo com o relatório, essas regiões são “a fronteira da desigualdade” do mundo atual, ou seja, as áreas do planeta onde a concentração de renda é mais extrema.

O Manifesto e obras posteriores de Marx, Engels e dos que adotaram sua metodologia apontam que as amarras às quais estamos submetidos são feitas, e podem ser mudadas, pela humanidade. À época em que seus autores eram vivos, escreveram vários prefácios para novas edições ou traduções do Manifesto do Partido Comunista que surgiam, ampliando em dezenas de milhares de exemplares as possibilidades de acesso dos proletários ao seu conteúdo. Hoje, ele está gratuitamente ao alcance de um clique na internet (https://www.pcp.pt/sites/default/files/documentos/1997_manifesto_partido_comunista_editorial_avante.pdf) em praticamente, se não todas, as línguas do mundo.

Proletários de todo o mundo, leiam-no!



Carlos Pompe

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

“CADA HERÓI TEM SEU TEMPO, CADA TEMPO TEM SEU HERÓI”

Por Jeison G Heiler & George de Medeiros

O Carnaval de 2018 ficou marcado pelos protestos que agitaram as avenidas do samba contagiando foliões, e até mesmo os mais passivos espectadores, constrangendo a tantos outros com o espetáculo inesperado. A arte cumpre assim com um dos seus papeis: como na tragédia Sheakeasperiana, em que o príncipe encena as circunstâncias da morte de seu pai Hamlet diante do assassino, desnudando-o, os artífices da Escola Paraíso Tuiutí levaram para a avenida uma verdade incômoda: o país privou do poder uma presidenta legitimada por mais de 50 milhões de votos para colocar no seu lugar um vampiro titereteiro.

Mas os protestos e a crítica mordaz não se restringiram aos palcos principais do carnaval brasileiro. O mesmo sentimento esteve presente em outros carnavais Brasil adentro. Na cidade de Joinville, a maior de Santa Catarina, a escola Gres Diversidade lembrou dos verdadeiros heróis do povo, como Chico Mendes, ou Zumbi. Mas não somente, cantou também os heróis do dia-a-dia tão desprestigiados com os projetos de desmonte social do Vampiro Neoliberalista. Um dos destaques da escola na ala dos heróis do dia-a-dia, a ativista social Mariana Franco, Vice-presidenta da UNALGBT em SC, enfatizou que “A escola GRES Diversidade trouxe a voz do povo para a avenida!”.
Destaque - Mariana Franco

A escola de samba Unidos pela Diversidade surgiu em 2011 de movimentos sociais, e hoje é maior escola da cidade, vem lutando todo esse tempo por igualdade e respeito, não só no carnaval, mas como um retrato da nossa vida diária.

Ala Chico Mendes

Num desfile histórico que levou 450 integrantes para a avenida Beira-rio não poupou críticas ao governo local e também a grave crise política que assola o país. Dentre seus destaques a escola apresentou políticos na cadeia junto aos vilões infantis e o carro alegórico de “Desordem e Retrocesso”  no qual foi retratada toda a falta de política social , o descaso com a cultura na cidade , e o desrespeito com as minorias. Joinville acompanhando a onda nacional vive um momento de desmonte da política cultural no qual a fundação cultural foi agregada à a secretaria de turismo, vivendo um momento em que o sistema de incentivo a cultura esta desacreditado.

Mas o Carnaval de 2018 nos mostrou o poder da arte e da cultura popular. O poder de mobilizar, de resistir e de se marcar presença. Para Inês Gonçalves, umas das diretoras da escola “O Carnaval mobiliza muita gente e articula a circulação econômica local, seja com o engajamento de dezenas de famílias no processo de construção de fantasias, ou do publico que sai de casa para prestigiar o espetáculo”

“Sabemos que nesse momento não reconhecemos mais heróis , mas temos que voltar a acreditar e perceber que ele está dentro de cada um de nó , basta tentar, confiar e acreditar. Nós somos os heróis do dia a dia. “Rogério Souza Jr.  (vice presidente GRES Diversidade)