Por Domingos Miranda
Nosso
país não valoriza dignamente aqueles que lutaram em defesa do povo. Muitos
deles foram e são vilipendiados pela grande imprensa e pelos poderosos. Mas o
papel que desempenharam ficará marcado para sempre na nossa história. Aqui
gostaria de citar apenas um nome para representar todos eles: o jornalista
Cipriano Barata.
Cipriano
José Barata de Almeida nasceu em Salvador, Bahia, em 1762, e morreu em Natal,
Rio Grande do Norte, em 1838. Durante toda a sua vida lutou em prol da
independência e pelas liberdades democráticas. Por nunca se curvar diante dos
poderosos, a nossa história oficial nunca deu o devido destaque a este
patriota, preferindo falar mais de duques, barões e imperadores. O historiador
francês Michelet dizia que “a história é, às vezes, madrasta: cobre de louros
os que pouco fizeram e obscurece o mérito dos verdadeiros heróis”.
O
desembargador Paulo Garcia, em seu livro “Cipriano Barata ou a liberdade acima
de tudo”, escreveu: “Poucos brasileiros fizeram tanto pela nossa independência
quanto esse baiano que, ainda no século 18, conheceria as amarguras do cárcere
por sonhar com a nossa liberdade política; que nas Cortes de Lisboa,
enfrentando deputados e galerias agressivas, defendia com incrível coragem e
destemor a causa do Brasil; que se fez no mais legítimo jornalista liberal de
seu tempo, enfrentando a ira dos poderosos e que, por isso, percorreu todos os
cárceres militares do Rio de Janeiro, da Bahia e de Pernambuco, perdendo nas prisões
infectas mais de dez anos de sua preciosa vida, toda voltada à causa da
liberdade”.
O
pai de Cipriano Barata era tenente do Exército e, mesmo com poucos recursos e
enormes sacrifícios, conseguiu mandar o filho para a Universidade de Coimbra,
em Portugal, onde bacharelou-se em filosofia, matemática e cirurgia. Além de
médico, professor e político, Barata também exerceu por quase duas décadas a
profissão de jornalista. Nesta atividade fundou o jornal “Sentinela da
Liberdade”, que era editado até mesmo nas prisões por onde passava. Por isso
ele poderia ser, com muita honra, considerado o patrono da nossa imprensa
popular.
Ainda
jovem, em 1799, Cipriano Barata foi acusado de envolvimento com a Revolta dos
Alfaiates, na Bahia, ficando preso 14 meses em consequência disso. Após este
episódio dedicou-se exclusivamente à sua clínica e às atividades agrícolas. Em
1817 estoura a Revolução Pernambucana e ele esteve presente nestes
acontecimentos. Como tinha muito prestígio na Bahia, em 1821 foi eleito deputado
para as Cortes Portuguesas.
Durante
os trabalhos parlamentares em Lisboa, Barata portou-se com inegável bravura,
sempre defendendo os interesses brasileiros. Por causa disso foi perseguido e
teve que fugir em um navio para a Inglaterra para evitar ser preso.
Com
a independência do Brasil retornou à sua pátria onde, em 1823, fundou em Recife
o jornal “Sentinela da Liberdade”. Devido aos seus artigos contundentes em
defesa da liberdade e a favor da República é preso em novembro de 1823 de onde
sairia só em 1830.
Solto
novamente lança seu brado de alerta nos jornais, combatendo o absolutismo e a
tirania. Isso era inaceitável para os governantes e, no dia 28 de abril de
1831, mais uma vez é encarcerado, sem qualquer acusação formal. Há uma grande
mobilização dos segmentos patrióticos e em 14 de janeiro de 1833 o Supremo
Tribunal de Justiça é forçado a absolvê-lo.
Mesmo
alquebrado pelas torturas e pela idade, o velho combatente volta a publicar a
“Sentinela da Liberdade” até 1835. Neste ano, desiludido e pobre, muda-se para
Natal ondem veio a falecer em 1838. Não deixou nenhuma riqueza, apenas o
carinho do povo por quem lutou durante toda a sua vida. Triste do país que
coloca no esquecimento homens valorosos como este.
Se
hoje existem casos semelhantes de perseguição a personagens que estão ao lado
do povo, não é mera coincidência. É que a nossa justiça sempre trabalhou a
favor dos poderosos.

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