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domingo, 21 de janeiro de 2018

Cipriano Barata, um herói esquecido

Por Domingos Miranda

Nosso país não valoriza dignamente aqueles que lutaram em defesa do povo. Muitos deles foram e são vilipendiados pela grande imprensa e pelos poderosos. Mas o papel que desempenharam ficará marcado para sempre na nossa história. Aqui gostaria de citar apenas um nome para representar todos eles: o jornalista Cipriano Barata.

Cipriano José Barata de Almeida nasceu em Salvador, Bahia, em 1762, e morreu em Natal, Rio Grande do Norte, em 1838. Durante toda a sua vida lutou em prol da independência e pelas liberdades democráticas. Por nunca se curvar diante dos poderosos, a nossa história oficial nunca deu o devido destaque a este patriota, preferindo falar mais de duques, barões e imperadores. O historiador francês Michelet dizia que “a história é, às vezes, madrasta: cobre de louros os que pouco fizeram e obscurece o mérito dos verdadeiros heróis”.

O desembargador Paulo Garcia, em seu livro “Cipriano Barata ou a liberdade acima de tudo”, escreveu: “Poucos brasileiros fizeram tanto pela nossa independência quanto esse baiano que, ainda no século 18, conheceria as amarguras do cárcere por sonhar com a nossa liberdade política; que nas Cortes de Lisboa, enfrentando deputados e galerias agressivas, defendia com incrível coragem e destemor a causa do Brasil; que se fez no mais legítimo jornalista liberal de seu tempo, enfrentando a ira dos poderosos e que, por isso, percorreu todos os cárceres militares do Rio de Janeiro, da Bahia e de Pernambuco, perdendo nas prisões infectas mais de dez anos de sua preciosa vida, toda voltada à causa da liberdade”.

O pai de Cipriano Barata era tenente do Exército e, mesmo com poucos recursos e enormes sacrifícios, conseguiu mandar o filho para a Universidade de Coimbra, em Portugal, onde bacharelou-se em filosofia, matemática e cirurgia. Além de médico, professor e político, Barata também exerceu por quase duas décadas a profissão de jornalista. Nesta atividade fundou o jornal “Sentinela da Liberdade”, que era editado até mesmo nas prisões por onde passava. Por isso ele poderia ser, com muita honra, considerado o patrono da nossa imprensa popular.

Ainda jovem, em 1799, Cipriano Barata foi acusado de envolvimento com a Revolta dos Alfaiates, na Bahia, ficando preso 14 meses em consequência disso. Após este episódio dedicou-se exclusivamente à sua clínica e às atividades agrícolas. Em 1817 estoura a Revolução Pernambucana e ele esteve presente nestes acontecimentos. Como tinha muito prestígio na Bahia, em 1821 foi eleito deputado para as Cortes Portuguesas.

Durante os trabalhos parlamentares em Lisboa, Barata portou-se com inegável bravura, sempre defendendo os interesses brasileiros. Por causa disso foi perseguido e teve que fugir em um navio para a Inglaterra para evitar ser preso.

Com a independência do Brasil retornou à sua pátria onde, em 1823, fundou em Recife o jornal “Sentinela da Liberdade”. Devido aos seus artigos contundentes em defesa da liberdade e a favor da República é preso em novembro de 1823 de onde sairia só em 1830.

Solto novamente lança seu brado de alerta nos jornais, combatendo o absolutismo e a tirania. Isso era inaceitável para os governantes e, no dia 28 de abril de 1831, mais uma vez é encarcerado, sem qualquer acusação formal. Há uma grande mobilização dos segmentos patrióticos e em 14 de janeiro de 1833 o Supremo Tribunal de Justiça é forçado a absolvê-lo.

Mesmo alquebrado pelas torturas e pela idade, o velho combatente volta a publicar a “Sentinela da Liberdade” até 1835. Neste ano, desiludido e pobre, muda-se para Natal ondem veio a falecer em 1838. Não deixou nenhuma riqueza, apenas o carinho do povo por quem lutou durante toda a sua vida. Triste do país que coloca no esquecimento homens valorosos como este.

Se hoje existem casos semelhantes de perseguição a personagens que estão ao lado do povo, não é mera coincidência. É que a nossa justiça sempre trabalhou a favor dos poderosos.

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