O QUE É ZARCO LIVRE?

Zarco é uma gíria usada pelos moradores de Joinville para ônibus. Portanto, o Zarco Livre está aberto para transportar o leitor a novas ideias, tendo como parâmetro o respeito à democracia, à verdade e à dignidade humana.

Livre trânsito para todas as idéias

quarta-feira, 26 de julho de 2017

PARA QUE SERVE UMA ESCOLA SEM ALUNOS?

Por Coletivo Formigueiro

Era uma escola muito engraçada, não tinha professores, não tinha alunos, não tinha nada. Essa poderia ser apenas uma paródia dos versos de Vinícios de Morais, para falar de mais uma escola sucateada. Mas é na verdade o destino de diversas escolas catarinenses.

Transformadas em meros números, as escolas agora precisam “render” pelo menos 120 matrículas, do contrário, fim da linha. Esse é o limite de viabilidade das escolas determinado pelas Gerências Regionais de Educação (Gered).

Seguindo a lógica do mercado, o governo do Estado de Santa Catarina consulta a comissão do Plano de Ofertas Educacionais (POE), vinculada à Secretaria de Estado da Educação (SED), para determinar quais escolas continuam abertas e quais serão descontinuadas. Somente em Joinville, com a “ociosidade” de aproximadamente 13 mil vagas, o governo do estado, nos últimos anos, fechou cinco estabelecimentos de ensino: Escola Rui Barbosa, Escola Conselheiro Mafra, Escola Monsenhor Sebastião Scarzello, Escola Plácido Xavier Vieira e Escola Dr. Elpídio Barbosa. Além da queda da demanda, o fechamento destas escolas é justificado pela dificuldade em recuperar estruturas físicas de prédios danificados pela ação do tempo.

Na região Norte de Santa Catarina, além de Joinville, outros municípios foram afetados com o fechamento de escolas, enturmação e municipalização. Em Jaraguá do Sul: Escola Erich Gruetzmacher, Escola Giardini Lenzi e Escola Professora Lília Ayroso Oschsler; em Schroeder: Escola Miguel Couto; em Corupá: Escola São José.

Em termos numéricos, dados do último Censo Escolar apontam que, em Santa Catarina, entre 2015 e 2016, as matrículas no Ensino Médio encolheram de 197 mil para 191 mil. Os dados à disposição não detalham as razões da queda nas matrículas dos jovens com idade entre 15 e 17 anos, os quais deveriam cursar o Ensino Médio. Poderia ser a baixa atratividade das aulas, ingresso no mercado de trabalho, queda da taxa de natalidade, migração. Mas estas possibilidades não são tão relevantes para as ADR’s. O que importa, ao que parece, é a economia de recursos públicos na educação: fim do pagamento de aluguéis de prédios, paralisação de reformas, e demissão de professores temporários. Com esses números somados às diminuições de alunos no Ensino Fundamental, o chamado reordenamento escolar avança pelo estado

Na outra extremidade dessa conta o Censo Escolar mostra que em 2016, em Santa Catarina, houve um aumento de 10 mil matrículas na pré-escola. Mas há também um déficit de 78 mil vagas em creches, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015, divulgado em março de 2017. Em breve deverão ser divulgados dados do Censo 2017, realizado de maio a julho.

Precisamos somar esforços para que a educação escolar seja prioridade dos governos e, ao invés de fechar escolas sob o pretexto de economizar recursos financeiros, que seja investido, prioritariamente, no futuro de nossas crianças e jovens, a exemplo de outros países que obtiveram resultados econômicos positivos a partir da educação.

COLETIVO FORMIGUEIRO JOINVILLE

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Há exatos 100 anos Joinville vivia sua primeira greve

Por Domingos Miranda

Não existe prisão para as ideias, elas circulam livremente. Assim aconteceu em 1917, um dos anos em que a classe operária abalou o mundo e o Brasil. Em março, depois de enormes paralisações nas fábricas de São Petersburgo e Moscou, na Rússia, uma das monarquias mais sanguinárias da Europa foi derrubada. Em outubro daquele mesmo ano, os trabalhadores, sob a liderança de Lênin e do Partido Bolchevique, assumiram o poder. Estes fatos se alastraram como fogo em palha seca, trazendo esperança para os oprimidos de todo o mundo. Em São Paulo, em 9 de julho, os operários de uma fábrica têxtil entraram em greve por melhoria nos salários e nas condições de trabalho. Mesmo com a repressão violenta a paralisação se espalhou e a cidade parou por uma semana. Em 23 de julho, os trabalhadores de Joinville fizeram a sua primeira greve, atingindo várias fábricas.




O mais surpreendente na greve de Joinville foi ela ter acontecido mesmo não havendo qualquer sindicato na cidade. Mas a notícia de que os grevistas de São Paulo haviam conseguido uma bela vitória, obtendo 20% de aumento nos salários, inflamou o ânimo dos trabalhadores em vários cantos do país. Nesta época, Joinville já era a cidade mais industrial de Santa Catarina. Aqui havia fábricas de meias, de tecidos de algodão, de velas, de pregos, arame farpado e telas, fósforos, móveis e tinha engenhos de erva-mate, serrarias e um moderno moinho de trigo. A antiga Colônia Dona Francisca foi colonizada por imigrantes suíços e alemães e era conhecida como a cidade da ordem e do trabalho. Artigos em jornais diziam que “o operário joinvilense é feliz e não se prestará nunca a promover desordens grevistas”.



Mas não era bem assim que pensava o trabalhador. Com a eclosão da primeira guerra mundial o país aumentou a exportação de alimentos e os preços dispararam. Para se ter uma ideia da situação, basta ver que entre 1914 e 1923, o salário no país havia subido 71% enquanto o custo de vida aumentou 189%. Portanto, quando a greve em Joinville se espalhou por várias fábricas pegou os empresários desprevenidos. A paralisação se encerrou somente no dia 1º de agosto sob a ameaça de demissão em massa. A historiadora Iara Andrade Costa escreveu que “a notável mobilização geral dos operários” fez com que os empregadores assumissem o compromisso de vender alimentos por preço de custo. Isto foi importante, pois os trabalhadores gastavam 65% dos salários com alimentos.

Como o objetivo fundamental do capitalismo é o lucro, obtido em cima de salários aviltados, os empresários se mobilizaram para evitar que novas paralisações ocorressem. Foram criadas “listas negras”, com o nome de lideranças dos grevistas que não mais conseguiam emprego nas fábricas. Já os trabalhadores tiraram uma grande lição: sem união não se alcança qualquer benefício. E isto ficou evidente ao longo dos cem anos seguintes, quando se conseguiu estipular as oito horas de trabalho por dia, férias, aposentadoria, salário-maternidade, 13º etc. A luta não para, pois agora o Congresso acaba de votar o desmonte da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). No entanto, os trabalhadores saberão dar uma resposta a altura, como fizeram em 1917.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Reforma Trabalhista: Agora trabalhador deve pagar para entrar com processo judicial

Por Jeison Giovani Heiler

A reforma trabalhista foi aprovada no Senado já faz uma semana. E entorpecidos os trabalhadores parecem ainda não ter atinado para o seu verdadeiro significado.

Aos poucos a mídia vai mostrando algumas das [des] vantagens da reforma trabalhista. Uma delas: Agora trabalhador deve pagar para entrar com processo judicial. Além das custas, e dos honorários do advogado do patrão (sucumbência) o trabalhador vai ter que arcar com custos como perícias para avaliar insalubridade, que podem chegar a R$ 5 mil, segundo matéria da Folha de São Paulo [que até semana passada dizia que a reforma seria boa para a o trabalhador].

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Evidentemente que a ideia por detrás desta alteração na lei que garantia justiça gratuita na justiça do trabalho para o trabalhador, está o desejo de desencorajar o trabalhador a ingressar com ações trabalhistas, que além de demoradas, agora passam a custar também no seu bolso.

Um outro efeito desta alteração é forçar o trabalhador a abrir mão de seus direitos, inclusive constitucionais, em acordos na justiça do trabalho, para fugir às custas como perícias ou o risco de ter que pagar os honorários do advogado do patrão (sucumbência) caso venha a perder a ação.

Quer dizer, se antes da reforma muitas vezes o trabalhador partia para um acordo para abreviar a espera de uma sentença definitiva que podia chegar a muitos anos, agora além da demora há um novo estímulo para que abra mão de seus direitos, o fato de fugir ao risco de acabar pagando pela ação a que tem direito constitucional (art. 7º, XXIX, CF).

A reforma trabalhista foi levada a termo como o discurso cínico do governo de que representariam a modernização das leis trabalhistas e que não significariam a retirada de direitos. Infelizmente o trabalhador vai ter que aprender na pele que não deveria ter confiado neste discurso. Agora direitos conquistados com muito luta caem de maduros e se desintegram no solo. Logo o cheiro da podridão e a sujeira alterarão o humor dos trabalhadores e da massa de indivíduos explorados em um mercado de mão de obra a cada vez mais precário. Cabe saber se deste frutos caídos e apodrecidos germinarão sementes para um futuro de novas lutas e conquistas.


Difícil acreditar.

domingo, 9 de julho de 2017

A verdade custa a aparecer

Domingos Miranda

No meio desta catástrofe surgida após o golpe que destituiu Dilma Roussef da presidência surge um fato positivo. As pessoas mais esclarecidas passaram a ver como funciona as entranhas do poder. Mesmo que o jornalismo oficial tenta passar uma visão mais amena da situação, não há como deixar de sentir o odor fétido de um corpo que começa a entrar em putrefação. Há de tudo nesta trama mafiosa, desde políticos envolvidos com o tráfico de drogas, passando pela interferência da CIA e FBI nos destinos do país até a compra despudorada dos votos de deputados na busca de seus interesses. A cereja neste bolo é a participação aberta da grande mídia neste complô. Ao invés de mostrar os fatos o jornalismo passou a fazer parte da política. E aí a verdade é escamoteada.

Chacrinha tinha um velho bordão: na televisão nada se cria, tudo se copia. Na política não é diferente. Sabemos que a interferência americana no Brasil é coisa antiga. Aqui quero recordar o que aconteceu na administração do presidente Ronald Reagan, na década de 80. Anticomunista fanático, Reagan burlou a lei para financiar grupos de mercenários, conhecidos como Contras, que eram uma espécie de Estado Islâmico latino-americano. Os contras praticavam todo tipo de terrorismo no território da Nicarágua na tentativa de derrubar o governo sandinista, que assumiu o poder após a vitória da guerrilha, em 1979. A família Somoza, colocada no poder na década de 30 pelos EUA, foi responsável por uma das ditaduras mais violentas do mundo. Então era necessário arrumar dinheiro por debaixo do pano para financiar “os guerrilheiros da liberdade”, pois o Congresso americano havia proibido qualquer tipo de ajuda a estes criminosos.


Uma das saídas foi a venda clandestina de armas para o Irã, cujo governo dos aiatolás era considerado o maior inimigo dos americanos. O dinheiro desta transação era repassado através de contas secretas para os contras. O coronel americano Oliver North foi o responsável por esta transação e se tornou o queridinho da imprensa quando foi obrigado a prestar declarações na CPI do Congresso. Mas, havia um outro tipo de financiamento aos contras e que veio a público somente em 1996. A CIA passou a ser cúmplice no contrabando de toneladas de cocaína a ser vendida nos Estados Unidos. A denúncia foi feita pelo jornalista Gary Webb, no jornal San José Mercury News.

Diferentemente do que aconteceu vinte anos antes, quando os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post, denunciaram as falcatruas do presidente Nixon e se tornaram heróis nacionais, a vida de Webb virou um inferno após denunciar o envolvimento da CIA com o tráfico. Ele foi demitido de seu jornal e não conseguiu arrumar um novo emprego. Pouco tempo depois o jornalista apareceu morto. O caso virou filme, “O Mensageiro” (Kill the Menseger), que trata da vida de Gary Webb e sua investigação. O economista Paul Krugman, ao fazer um comentário sobre o filme, botou o dedo numa ferida bem atual e disse que a grande mídia hoje faz política, não jornalismo.

Esta ligação da CIA com narcotraficantes voltou a ser manchete por ocasião da guerra aos barões da cocaína no México. A tevê Al Jazzeera, uma das mais prestigiadas do mundo, publicou declaração de um funcionário do governo do Estado de Chihuahua, na fronteira com os EUA, mostrando que a agência de informações americana “não luta contra os traficantes, os administra”. Guillermo Terrazas Villanueva, coordenador de comunicação de Chihuahua, não foi desmentido.

Portanto, voltando ao Brasil, quando vemos os narcotraficantes obtendo cada vez mais espaço na sociedade, passamos a indagar se não há os tentáculos da CIA nesta história? Por que escolheram para ministro da Justiça um advogado do PCC e que depois foi conduzido ao Supremo Tribunal Federal (STF)? Porque a Justiça não pune com rigor os envolvidos no transporte de centenas de quilos de cocaína? Por que seriam de políticos? A imprensa abandonou o seu papel investigativo, pois faz parte do complô. Alguns que foram mais a fundo nesta questão tiveram destino semelhante ao do jornalista americano Gary Webb. O presidente Lincoln dizia que “não há como esconder a verdade por todo o tempo”. Ligando um fato com os outros começamos a visualizar os contornos macabros dos reais objetivos que levaram ao impeachment de Dilma. Um dia a história contará a verdade.