O QUE É ZARCO LIVRE?

Zarco é uma gíria usada pelos moradores de Joinville para ônibus. Portanto, o Zarco Livre está aberto para transportar o leitor a novas ideias, tendo como parâmetro o respeito à democracia, à verdade e à dignidade humana.

Livre trânsito para todas as idéias

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O dia em que o ditador foi escorraçado pelos catarinenses

Por Domingos Miranda



Raríssimos são os casos em que um ditador foi posto para correr pela população em uma cidade. E isso aconteceu em Florianópolis, em 30 de novembro de 1979, quando o general-presidente João Figueiredo visitou a cidade e o episódio ficou conhecido como A Novembrada. Naquele ano o país estava agitado e era como o destampar de uma panela de pressão após 15 anos de ditadura. No ABC paulista, os operários das montadoras fizeram grandes paralisações pelo segundo ano consecutivo. Os moradores faziam abaixo-assinados e manifestações contra a carestia. No início do segundo semestre saiu a anistia e a quase totalidade dos presos políticos foram soltos. Os perseguidos que estavam no exterior começaram a voltar e foram criados os jornais alternativos ligados a partidos, entre eles a Tribuna Operária, do PCdoB. Havia um grande descontentamento popular por causa do desemprego, baixos salários e carestia. Bastou um gesto obsceno do ditador para que a rebelião começasse.

Figueiredo chegou à capital catarinense com grande esquema de segurança. No caminho do aeroporto à capital ele teve que ouvir um panelaço das moradoras por causa da carestia pois, às vésperas da viagem, autorizou o aumento dos combustíveis e da carne, insuflando o descontentamento popular. Para agravar o quadro, o governo federal decidiu inaugurar uma placa de bronze em honra ao marechal Floriano Peixoto, que era mais conhecido por ter mandado fuzilar mais de cem pessoas em Florianópolis durante a Revolta da Armada, em 1893.

O ambiente estava carregado quando o presidente fez o seu discurso, da fachada do Palácio Cruz e Sousa, e foi recepcionado por uma manifestação de 4 mil estudantes convocada pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Assim que ele ouviu as primeiras vaias ficou transtornado e fez um gesto obsceno com os dedos polegar e indicador. A partir daí a população se uniu aos universitários e enfrentaram os policiais. A placa em homenagem a Floriano foi arrancada e levada como troféu e os enfeites, colocados na praça XV de Novembro para recepcionar as autoridades, foram arrancados e queimados.

No trajeto até um tradicional café na rua Felipe Schmidt, Figueiredo foi hostilizado com palavras de ordem que citavam o nome de sua mãe e avançou contra o povo. Ele foi contido pelos seguranças e teve que ser retirado às pressas do local. A Polícia Militar agiu com extrema violência contra os manifestantes e a cidade ficou deserta no resto do dia. Em seguida a polícia iniciou as investigações e prendeu sete líderes estudantis que foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional. As repercussões destas cenas rodaram o mundo.

Nos dias seguintes foram feitas várias manifestações, algumas com cerca de 10 mil pessoas, exigindo a libertação dos estudantes presos. A pressão popular fez efeito e no dia 12 de dezembro os sete membros do DCE foram libertados. Os militares que mandavam no país saíram desmoralizados. Quatro anos depois teve início a maior mobilização da história brasileira, a Diretas Já, que resultou no fim da ditadura, em março de 1985.

O professor universitário Sílvio Coelho dos Santos escreveu o livro “Nova História de Santa Catarina” e relatou que o golpe militar de 1964 trouxe muita violência e perseguição aos moradores do Estado. Nas palavras dele, “todos perderam com as amarras criadas pelo regime de exceção, centrado na delação, no medo, na alienação, na censura, na concentração de renda e no endividamento externo. Foram os anos de chumbo. Não é de se estranhar a explosão social ocorrida em Florianópolis, em 1979, em protesto contra a visita do então general-presidente Figueiredo. A população também tinha a sua memória”.

sábado, 18 de novembro de 2017

A difícil situação dos índios guarani

Por Domingos Miranda

Ideias simples costumam ser eficientes pois são mais fáceis de serem colocadas em prática. Foi isso o que fez o advogado e sociólogo Jeison Heiler, professor da Universidade Católica de Joinville. Ele tem levado seus alunos até as aldeias dos índios guarani espalhadas pela região de Joinville para conhecerem a realidade desta etnia tão marginalizada pela nossa sociedade. No dia 16 de novembro eu acompanhei a excursão dos alunos de direito até a aldeia Piraí, no município de Araquari, às margens da BR-280. Aprendi muito com a conversa com o cacique Ronaldo Costa, 41 anos, líder de 23 famílias (150 pessoas), espremidas numa pequena área de dois hectares.

Cacique - Ronaldo Costa - Karai Tukumbó

Inicialmente estivemos na escola de ensino básico, com 57 alunos, sob a coordenação da índia Cecília Brizola, As aulas são em guarani e português. Além das disciplinas existentes em qualquer escola urbana, ali também é valorizada a cultura tradicional indígena. Cecília, por exemplo, que trabalha com ervas medicinais, explica aos alunos o valor de cada planta. Ela revela que o desmatamento tem prejudicado o seu trabalho. “Sem mato a gente não vive. Temos cura para tudo, até para o câncer, mas aqui não tem quase nada do que a gente precisa para fazer os remédios”, diz.

Família Guarani


Em um amplo salão de pau-a-pique (paredes de barro entrelaçado com paus) e chão batido funciona a área de culto ao Deus Nheanderu. O cacique, antes de começar a falar, acende o seu enorme cachimbo com fumo de corda. Ronaldo Costa explica que a fumaça ajuda a entrar em contato com Nheanderu. Ele falou sobre as dificuldades enfrentadas, tais como o desconhecimento por parte dos brancos – juruá – da sua cultura. “Muitas vezes dizem que nós somos do Paraguai ou da Argentina, mas estas separações de fronteira não existem para nós. Antes da chegada dos brancos toda a região Sul, Paraguai e norte da Argentina já estava habitada pelos guarani. Então não precisamos pedir licença para percorrer nosso território original”, frisou.

Estudantes Guarani

O preconceito contra o índio está muito arraigado entre a população. Muitos costumam afirmar que o índio é preguiçoso, mas não entendem que a mentalidade indígena não é capitalista, onde só tem valor quem tem dinheiro. Os habitantes originários viviam da caça e pesca, por isso eles sempre se preocupam em preservar o meio ambiente. “O desmatamento prejudica. Sem mato a gente não vive. Nós estamos preocupados com os brancos que estão cortando todo o mato. Se um dia acabar o mato nós vamos acabar, os rios vão secar”, nos ensina Ronaldo, com o rosto pintado e um cocar na cabeça.


Sem condições de sobreviver com a caça e a pesca, eles são obrigados a comercializar artesanato nas cidades. O cacique conta que plantou uma roça de milho e o dono das terras soltou o gado em cima e acabou com tudo. A grande esperança deles é a demarcação de quatro reservas indígenas, determinada pela Funai, mas embargada pelo Tribunal da Justiça Federal. Esta é uma luta que mobilizou os proprietários rurais das áreas atingidas pela demarcação e que está sendo discutida na justiça. As quatro áreas, num total de 10 mil hectares, estão nos municípios de Araquari, Balneário Barra do Sul e São Francisco do Sul.

Jeison, Cacique, e Domingos aos fundos a Casa de Reza


A sociedade deveria reconhecer o valor destes indígenas e se solidarizar com a sua luta. Os habitantes da região, quando chegaram os primeiros brancos, eram os índios carijó (também da etnia guarani). Por serem pacíficos, foram presas fáceis para os bandeirantes que os caçavam, aprisionavam e vendiam-nos como escravos em São Paulo. Por volta do século 17 estes indígenas já estavam extintos. Não podemos deixar que isto aconteça novamente com os atuais moradores das reservas Piraí, Pindoty, Tarumã e Morro Alto. Respeitar o diferente é o que nos torna mais humanos.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Cem anos da Revolução de Outubro

Por Domingos Miranda

A utopia é o motor que faz avançar a humanidade. E a busca por justiça e igualdade é a ideia que mais entusiasma os oprimidos. No dia 7 de novembro de 1917 (26 de outubro no calendário russo daquela época), a revolução dirigida pelo Partido Bolchevique (Comunista) da Rússia colocou os operários e camponeses pobres no poder. Pela primeira vez na história, os trabalhadores eram os protagonistas da história. Sob a liderança de Lênin, o regime comunista, enfrentando todas as dificuldades imagináveis, venceu os inimigos interno e externos, ficando no poder por mais de 70 anos. Foi uma experiência que provocou enormes transformações em todo o mundo.


Em fevereiro de 1917 ocorreu a primeira revolução, a que derrubou o czar, tendo sido implantado um governo provisório burguês. No entanto, como o governo não atendeu as duas principais reivindicações do povo – paz e terra para os camponeses, aconteceu a tomada do poder pelos sovietes, órgãos que representavam os operários, soldados e camponeses. A Revolução de Outubro, imediatamente tomou medidas radicais. As terras dos latifundiários foram entregues aos trabalhadores pobres do campo e assinado um acordo de paz com os alemães, pondo fim a uma guerra que durava desde 1914 e que causara milhões de mortos.

Mas os inimigos internos e externos não permitiram que a paz fosse duradoura. A elite russa uniu suas forças em torno do Exército Branco para derrotar o governo soviético. Ao mesmo tempo, tropas de 14 nações poderosas invadiram a Rússia. A guerra civil durou três anos, mas, aquilo que parecia impossível aconteceu: o Exército Vermelho, formado em sua maioria por voluntários, venceu. A partir daí era necessário fazer avançar a sociedade de novo tipo, sem exploradores.

Em 1924, morreu Lênin, o maior dirigente da revolução, e foi substituído por Stalin. Mesmo com os erros cometidos, pois era uma experiência totalmente inédita na face da terra, aqueles líderes estabeleceram políticas que conseguiram avanços impressionantes em quase todas as áreas. Em 40 anos, um dos países mais atrasados da Europa, se transformou na segunda potência do mundo. O avanço mais impressionante foi na industrialização. Graças à sua enorme capacidade de produção, foi possível criar condições materiais para enfrentar o invasor nazista, na Segunda Guerra Mundial. Os produtos bélicos saíam diretos das fábricas para os campos de batalha, permitindo derrotar o exército mais poderoso do mundo naquele instante. A educação e a ciência também deram avanços excepcionais, conseguindo abolir o analfabetismo e criar o maior estoque de cientistas do planeta. A União Soviética foi o primeiro país a colocar um cosmonauta em órbita.

Mas, tudo na vida está sujeito a acertos e erros. Se os erros não forem corrigidos podem implodir uma experiência vitoriosa. E foi isso o que aconteceu com o caminho socialista na União Soviética. Entre os equívocos, podemos ressaltar a burocratização do Partido Comunista, o que criou dificuldades para as críticas fraternas e a renovação de ideias. No final da década de 80 e início da década de 90 o capitalismo voltou a imperar na terra de Lênin e nos países do Leste Europeu. A partir daí a China foi quem levantou com sucesso a bandeira do socialismo.

A luta pelo socialismo se mostra mais atual do que nunca diante da política expansionista e belicista do imperialismo. A lista das agressões contra países mais fracos é longa nos últimos 25 anos: Iugoslávia, Somália, Afeganistão, Iraque, Líbia, Ucrânia, Síria. A única maneira de conter esta política terrorista dos Estados Unidos é juntar forças em prol do socialismo. Sabemos que esta é uma tendência natural da história mas, para que tal aconteça vai depender das massas, sob a orientação dos partidos que representam a classe operária e os setores oprimidos da sociedade. A Rússia, em 1917, nos ensinou que isto é possível. Portanto, vamos continuar levantando a bandeira da revolução.