O QUE É ZARCO LIVRE?

Zarco é uma gíria usada pelos moradores de Joinville para ônibus. Portanto, o Zarco Livre está aberto para transportar o leitor a novas ideias, tendo como parâmetro o respeito à democracia, à verdade e à dignidade humana.

Livre trânsito para todas as idéias

domingo, 25 de junho de 2017

Esta terra tem dono: os brasileiros

Por Domingos Miranda

Um antigo diplomata dizia que os países não têm amigos, mas sim interesses. E quando neles houver riquezas sempre haverá alguém interessado em meter a mão nesta cumbuca. Ao longo da história, nosso país sempre foi vítima destes gatunos. Apesar de todos os percalços que atrapalharam o nosso desenvolvimento, conseguimos importantes avanços e mantivemos a integridade territorial. No entanto, hoje a nossa soberania corre perigo. Os três poderes estão em frangalhos. Através da lawfare – uma guerra ilegal praticada por uma superpotência, com usos de poderes jurídicos para obter fins políticos – a presidente eleita foi destituída do cargo com a ajuda de deputados venais e a complacência de um judiciário partidarizado. O resultado é uma crise institucional de gravidade nunca antes vista.





Com a ajuda do governo golpista a soberania nacional está sendo desmontada. O principal ataque foi à Petrobras, a nossa mais valiosa empresa. As áreas para exploração de petróleo estão sendo passadas a empresas internacionais por preços vis. O refino de combustível entrou em declínio enquanto as refinarias ficam com capacidade ociosa. Com isso passamos a importar mais produto refinado. Nosso maior cientista em energia nuclear está preso em um julgamento pouco transparente. Com isso interrompe-se o avanço na construção de nossos submarinos nucleares. Voltou a ser discutido o repasse da Base Aeroespacial de Alcântara para os americanos, processo que estava sendo discutido no governo Fernando Henrique Cardoso e que foi interrompido com a eleição de Lula. Tropas americanas participarão, pela primeira vez, de operações de guerra na selva na Amazônia com o Exército brasileiro e com isso terão conhecimento sobre nossas táticas de defesa no interior da mata.

Tais fatos criam desassossego nos setores nacionalistas de nossa sociedade, mesmo dentro do governo. Há poucos dias, em palestra, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, mostrou que há divisão dentro das Forças Armadas nesta questão. Ele frisou que o Brasil é uma nação que não tem consciência da sua própria grandeza e das riquezas presentes em seu território. Calculou em 23 trilhões de dólares o potencial em recursos naturais existentes apenas na região amazônica.

Nem na época da ditadura, com o governo militar alinhado com os norte-americanos, a nossa política foi tão entreguista como agora no governo Temer. Está se discutindo no Congresso, a pedido do Executivo, alteração na lei para que se possa vender qualquer quantidade de terras para estrangeiros. Isso, aliado ao fato do Brasil ter ratificado a Convenção da Organização Internacional do Trabalho 169, que dá direito às nações indígenas declararem-se independentes, corremos o grave risco de ver o desmembramento de nosso território.

Todos os setores patriotas devem unir forças para barrar tal ameaça. Basta ver que há pouco mais de duas décadas a Iugoslávia foi desmembrada por causa de interesses externos. No Brasil poderá ocorrer o mesmo se não unirmos forças desde já. Isso inclui Forças Armadas, empresários, trabalhadores, estudantes, religiosos, políticos etc. Será uma união sem cor partidária pensando apenas na defesa da pátria. No século XVII o cacique Sepé Tiaraju mobilizou as tropas dos índios guaranis contra os exércitos de Portugal e Espanha. Ele dizia aos invasores: “Esta terra tem dono”. Morreu lutando, mas não se entregou. Hoje, devemos levantar novamente esta bandeira. Vamos mostrar aos interesses externos que esta terra tem dono, que são os brasileiros.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Acertando contas com a história

Por Domingos Miranda

Quase todo o mundo já ouviu esta frase: “O melhor juiz é a história”. Isto quer dizer que o tempo ajuda a peneirar o joio do trigo na avaliação dos fatos. Muitos líderes que ontem foram venerados, hoje são marginalizados por quem pesquisa os acontecimentos passados. Temos exemplos recentes. O general Garrastazu Médici, que angariou uma fugaz popularidade por conta do milagre econômico e pela conquista do tricampeonato da Copa Jules Rimet, em 1970, hoje é lembrado apenas como símbolo da tortura que dilacerou a sociedade brasileira nos anos de chumbo da ditadura. O general Franco, que tomou o poder na Espanha após desencadear um golpe militar que levou a três anos de uma das guerras civis mais sangrentas da Europa, com a democratização seu nome foi execrado pela sociedade. Atualmente não existe nenhum monumento ou localidade pública com o seu nome.

Monumento em homenagem a Carlos Lamarca e seu companheiro de luta Zequinha Barreto, na localidade de Pintadas, município de Ipupiara, Bahia.

O Brasil, ao longo de sua existência evitou mudanças na sociedade, As duas únicas exceções foram na Revolução de 30, que abriu as portas para a industrialização, e o Golpe Militar de 64, que evitou o avanço das forças progressistas. Com a redemocratização, em 1985, houve um realinhamento dos cristais, colocando-se algodão para evitar qualquer rachadura nas forças derrotadas. O que se viu foi uma mistura de democracia com penduricalhos da ditadura. Na Academia Militar de Agulhas Negras, por exemplo, ainda se comemora o 31 de março como efeméride que marcou a salvação da nação das garras do comunismo. Em Joinville, um dos grandes bairros leva o nome de Costa e Silva enquanto uma das principais escolas é denominada Garrastazu Médici. Paulo Freire, um dos maiores educadores brasileiros e reverenciado no mundo todo, não foi lembrado para ser nome de nenhuma escola no município.

Por conta desta apatia das autoridades em fazer uma reciclagem em nosso passado, hoje, muitos jovens falam da ditadura militar como exemplo de virtudes, esquecendo-se dos males que gerou, principalmente para a população mais pobre. Chega-se ao absurdo de, em algumas manifestações populares, verem-se faixas pedindo a volta do regime militar.


Frei Bertolomeu (direita) mostra o local exato da execução de Lamarca e Zequinha. Ao pé da cruz a pedra onde Lamarca descansava a cabeça antes de ser morto.

Felizmente, algumas vozes se levantam contra esta amnésia que tentam implantar sobre o nosso passado recente. Por incrível que possa parecer, uma das medidas mais efetivas contra a deturpação histórica partiu de um religioso, o bispo de Barra, na Bahia, dom frei Luiz Flávio Cappio. Este franciscano que passou mais da metade de sua vida assistindo os pobres desvalidos que moram nas margens do rio São Francisco, decidiu contar a verdade para uma população que só tinha ouvido um lado da história, aquela contada pelos poderosos.

Com o dinheiro obtido do Prêmio Kant, dado pela Fundação Kant, na Alemanha, para aquelas personalidades que se destacam pelo engajamento corajoso na defesa de grupos sociais marginalizados politicamente e socialmente, frei Luiz Cappio decidiu criar a Capela dos Mártires. Lá foi construído um memorial lembrando os militantes políticos e líderes de agricultores que deram sua vida em defesa da justiça social. Entre os homenageados estavam o capitão Carlos Lamarca e o líder operário Zequinha Barreto, assassinados pelas forças da repressão, em 1971, no exato local onde foi levantada a capela, Quem toma conta do memorial é o frei Bertolomeu Gorges, nascido na cidade catarinense de São Pedro de Alcântara e que há 45 anos presta trabalho missionário no médio São Francisco.

Dom Luiz Cappio explica que decidiu esclarecer os moradores sobre estes líderes assassinados e que eram mostrados como “terroristas” desde a época da ditadura militar. Todos os anos são realizadas romarias até a Capela dos Mártires onde são prestadas homenagens aos mortos e levada solidariedade à luta daqueles que enfrentam a arbitrariedade dos poderosos e grileiros. Assim, com um exemplo prático, um bispo mostra que é possível derrubar o véu que tenta esconder a verdade dos fatos. Se os governantes democráticos tivessem a mesma ousadia, a história contada poderia ser bem diferente. Assim a história vai iluminando o caminho tortuoso de nossa sociedade.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Crime e Castigo

Por Jeison Giovani Heiler

Neste texto quero discutir as distintas formas de violência na sociedade. 

A imprensa tem noticiado há algum tempo cenas bárbaras que se descortinam em plena sociedade digital. Fácil constatá-lo: ao digitar os descritores <<ladrão>> e <<mão decepada>> no maior site de buscas global você leitor constatará o fato ao qual me refiro. 

Porém, nas últimas semanas vivenciamos atrocidades maiores. Um adolescente flagrado na tentativa de furto de uma bicicleta foi amordaçado e tatuado na testa com um rótulo que antes disso carregava consigo como estigma. E que a partir daí tornou-se textual, explícito¹.

Um fato que traz em si não somente a violência dos indivíduos que dele tomaram parte como co-partícipes. Na verdade, na sua execução, ele mobiliza a violência de toda uma sociedade. Trata-se da aplicação de uma pena baseada no princípio de Talião afastado das legislações modernas ocidentais deste a antiguidade. Não somente isto. Trata-se do julgamento e execução desta pena em forma ainda pior do que antiguidade, quando os indivíduos tinham ainda o direito ao julgamento e à defesa.

Este é um fato que poderia ser analisado e compreendido como bárbaro por muitas vertentes. Do ponto de vista jurídico, é desnecessário dizer que pode constituir inclusive  crime de tortura. Para dizer somente o mínimo. Como explicar que a reação á violência é ainda mais violenta. Como explicar o fato de que, a esta altura, provavelmente a maior parcela da população esteja aplaudindo e regojizando-se com a ação dos tatuadores/torturadores. Necessário dizer, com algum prazer primitivo de vingança realizada.

É fato que a violência é um fenômeno crescente nas sociedades modernas. Mas isto não pode justificar em nenhuma hipótese que retornemos à barbárie. Este fato noticiado  largamente pela imprensa é digno de Neandertais arqueados balbuciando e grunhindo em volta de uma fogueira. 

Desenvolveram-se algumas modificações na história da humanidade de lá pra cá. Dentre as quais uma série de signos utilizados para que os indivíduos possam empreender algum tipo de comunicação mais sofisticada. Além disso desenvolveram a moeda e desde que ela deixou de pesar mais que 10 quilos favoreceu-se que pudesse ser acumulada por qualquer um.

A linguagem que foi desenvolvida com grande nível de sofisticação para que os seres humanos pudesse empreender algum tipo de comunicação parece cair em obsolescência com extrema facilidade. Contudo, jamais seriamos capazes de admitir a vida sem a moeda e sua possibilidade de acúmulo.

Assim, o que nos faz diferentes, de verdade, dos selvagens de outrora, é o mero fato de que somos incapazes de viver sem o dinheiro. Apenas isso. O fato noticiado acima deixa claro que esses indivíduos não se importariam muito em andar pelas ruas com tacapes em punho. Tampouco se importariam com a supressão completa e absoluta de qualquer espécie de linguagem que pudesse fazer com que os indivíduos se comunicassem a respeito de seus problemas, tão comuns, afinal, e suas diferenças.

Ou senão, que tipo de escala valorativa autoriza que uma bicicleta, ou qualquer outro tipo de bem que possa ser convertido em moeda, tenha maior apreço que a vida e a dignidade humana?

Pior é que o alvo desta espécie de abordagem são justamente aqueles indivíduos alheados em absoluto de qualquer possibilidade de acúmulo monetário. Tão diferentes dos criminosos da Lava-Jato recebidos com selfies e bajulação.

Talvez porque tenhamos perdido a nossa capacidade de comunicação, tenhamos perdido a capacidade de perceber todas as formas de violência presentes em nosso mundo confuso. Como diz Hannah Arendt, só a violência é muda. Calados assistimos as mentiras deslavadas do presidente da Nação. Calados comemoramos a miséria do "menor infrator". Calados acompanhamos o desmanche da democracia como se fosse bom. Como se não fosse o maior ato de violência que poderíamos suportar.



¹ -  http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/06/1892182-adolescente-diz-ter-implorado-para-nao-tatuarem-ladrao-em-sua-testa.shtml